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O Santo Ofício Digital

A tecnologia, por definição neutra, foi a maior variável de transformação do mundo nos últimos 200 anos e, inequivocamente, tem contribuído para a melhoria da nossa qualidade de vida.

Mas num mundo cada vez mais saturado de informação, e com o uso massificado das grandes plataformas digitais, os algoritmos tentam captar a nossa máxima atenção, alegrando-nos com a ilusão de liberdade de escolha.

Como sustenta Noah Harari, hoje a censura passa por sermos inundados de informação filtrada que reforça certezas e retira dúvidas, e que, por conseguinte, ratifica convicções e ideias, na exata medida em que aceitamos que os nossos dados digitais, preferências e tendências, sejam vendidos pelas ditas plataformas a interesses privados, que direcionam as nossas escolhas de consumo (e também políticas, vide a eleição de Trump e o Brexit, para citar os casos mais óbvios), iludindo-nos de forma prazerosa através da quimera da liberdade de escolha.

Se pesquisar na internet informações sobre viagens, durante dias terei 1001 sugestões sobre excursões ou estadias, donde posso escolher a melhor opção através do meu “livre arbítrio”. É como o célebre caso da jovem que começou a comprar produtos de higiene e beleza com odores menos intensos, tendo o seu pai passado a receber anúncios e cupões de desconto para a compra de fraldas. A jovem estava grávida e o “sistema” soube primeiro que a família. Jogos como o Pokémon Go colocam os pokémons perto ou dentro de sítios de consumo, que pagam para tal, iludindo-nos com a sensação de uma diversão nunca antes vista e vendendo-nos a ideia de que “pelo menos agora os adolescentes movem-se”. Estamos numa espécie de Matrix, que se alimenta de nós e nós dela, à mercê de uma espécie de capitalismo sem alma, que nos guina consoante os seus desejos e interesses.

Quando os estados optarem conscientemente por tal controlo entraremos numa dimensão China, numa espécie de tecno-autoritarismo que nos aproximará de distopias orwellianas. E a verdade é que já foram dados passos nesse sentido. Veja-se a aprovação dissimulada da Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital que, entre outras ambiguidades, dá o direito ao Estado Português de criar estruturas de verificação de factos por órgãos de comunicação social devidamente registados e de incentivar a atribuição de selos de qualidade por entidades fidedignas dotadas do estatuto de utilidade pública. O Estado passa assim a ter carta branca para controlar e vigiar a liberdade de expressão e de informação digital em nome de “interesses superiores” (comparar com a Lei da censura de 1933) através do que as entidades reguladoras e os arautos de nomeação estatal e partidária, quais novos santos ofícios, PIDE ou KGB, decidirem o que é correto (ou esquerdisticamente correto), de acordo com a sua mundividência, que pelo menos desde 2015 já sabemos qual é. A censura chegou, sem nenhum voto contra(!), mas a nossa atenção já está no post seguinte. Bem-haja, admirável mundo novo.