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Mar calmo nunca fez bom marinheiro

“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! (…)”

Há uns dias, enquanto fazia ‘scroll’ no meu feed de notícias do Facebook, deparei-me com uma publicação que me catapultou para um estado imediato de profunda curiosidade e reflexão.

Com o meu polegar direito, rapidamente premi o ecrã no exato local dessa partilha! Mas, infelizmente, como a conexão da internet não era muito boa, tive de esperar cerca de vinte segundos para acalmar a súbita ânsia.

Uma vez aberta a publicação, e como se o “universo” contra mim conspirasse, não pude ler o artigo na íntegra (e quando digo “na íntegra”, é porque só dava mesmo para ler a introdução). Apenas porque a leitura de alguns textos do jornal em questão exige uma assinatura mensal, que eu, por ‘mea culpa’, não procurei obter.

Mas, desvirtuando-me por completo do conteúdo ao qual não tive acesso, somente apelarei pela atenção do leitor ao título do respetivo artigo para aqui formular, consigo, um breve mas substancial raciocínio:

– «Escolas deviam “ensinar os alunos a gerir melhor as emoções”».

(Pausa para reflexão.)

Eu atrevo-me a concordar.

O educar nunca deve servir apenas os propósitos práticos da inserção de um jovem no mercado do trabalho.

O educar é, e deve ser sempre depreendido como, a ponte entre o hoje e o amanhã. E “hoje”, a exigência passa, cada vez mais, por encontrar pessoas que, acima das qualidades técnicas certas, possuem os atributos mentais e psicológicos certos. Saber lidar com a pressão. Saber separar o pessoal e íntimo do profissional. Saber liderar e saber ser liderado. Saber se motivar e saber motivar os outros. Por exemplo. Tudo isto fruto de uma equilibrada gestão das emoções!

Poderá questionar: “Ah, mas nem todos estão talhados para o mesmo”. Claro que não! E ainda bem! No entanto, estamos a falar de alterações no ‘mindset’ do aluno que, independentemente deste as pôr em prática ou não, devem se fazer chegar ao destinatário.

É algo que deve começar a partir de casa? É tarefa dos pais incutir estes princípios de que falo? Certamente que sim, numa primeira instância. Mas, para o bem ou para o mal, nós não viemos todos do mesmo sítio. A realidade, enquanto criança, é heterogénea, e não poucas as vezes polarizada em termos de comparação. Uns têm muito, outros têm pouco. Uns têm pais que se preocupam, outros nem pais têm. Por exemplo. A escola tem a quase obrigação de, nestas situações ímpares, servir como uma “alternativa”.

São a experiência e a vida os nossos melhores “professores”? Não discordo, de todo! Mas se pudermos disponibilizar um conjunto de ferramentas prévias, não iremos estar a preparar melhor os nossos jovens para um mundo que ambos sabemos não ser fácil?

O “amanhã” muito passa por ensinar o aluno, ao longo do decurso do seu crescimento, a se conhecer a si mesmo, cognitivamente, e fazê-lo perceber que na sociedade, independentemente do meio de onde vem, há um lugar para ele, sem ter em conta a sua cor, sexo, estrutura física, etc.

Porque há sempre um lugar! Aqui ou ali, há sempre um lugar, se esse lugar for procurado com a devida ambição. Mas também é preciso esclarecer que o caminho a percorrer nunca será fácil, por razões óbvias, alertando e relembrando sempre que “mar calmo nunca fez bom marinheiro”.

“Resiliência” deve ser a palavra da ordem do dia nas nossas salas de aula.

Uma boa gestão das emoções, retomando o título, passa (não só, mas com ligeiro peso) por (1) se conhecer a si mesmo, (2) procurar ser aceite e (3) saber ouvir meia dúzia de “nãos”.

James Harvey Robinson, na sua aclamada obra “The Mind in the Making” (1921), procurou justificar que “o medo é um misto de ignorância e de incerteza”. Então, estimado leitor, sem querer parecer demasiado cético nas minhas palavras (e não esquecendo que existem, em curso, vários [mas, ainda assim, poucos] programas e projetos inovadores que buscam alcançar, em maior ou menor medida, aquilo que aqui falo), evitemos conduzir os nossos jovens pelo abismo da ignorância e da incerteza pessoais, porque gerir eficazmente as emoções próprias é sinónimo de ter uma mão cheia de conhecimento e sabedoria, e outra de certezas.

“(…) Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”

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