A delegação da Ordem dos Arquitectos
e o novo Hotel Savoy: um esclarecimento

Como ingénuos que somos, preferimos continuar a acreditar que o Funchal não é Playa del Ingles

11 Jul 2017 / 02:00 H.

Em Dezembro de 2015, a Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos lançou uma petição dirigida à Assembleia Legislativa Regional para reduzir a volumetria do Hotel Savoy. Fê-lo porque julgou estarem criadas as condições para um diálogo construtivo entre um grupo de cidadãos interessados no desenho urbano da sua cidade, as entidades licenciadoras do projecto e o promotor. No contexto de mudança que a Região vivia nesse ano (novo Governo Regional, nova Assembleia, nova vereação camarária) era uma possibilidade que se afigurava viável. A petição ficou-se pelas 1028 assinaturas. Como hoje parece ser óbvio, tratou-se de uma ingenuidade.

Não havia, na altura, qualquer interesse político em por entraves a um investimento que era considerado importante para o relançamento da economia local. Tomando como boa a notícia vinda a público, em 2009 o Turismo aprovou o projecto e nada mais teve a dizer; em 2015 a Câmara encarregou-se de “simplificar procedimentos”; o promotor agradeceu. Que o investimento fosse feito à custa de uma grave lesão na estrutura urbana que o acolhia, isto é, que fosse insustentável a médio/longo prazo, foi assunto que não interessou a ninguém. Era preciso “criar postos de trabalho”, mais turismo, mais desenvolvimento, mais investimento (e, talvez, mais votos). Para além disso havia o Plano de Urbanização do Infante (aberração inqualificável para quem tenha noções mínimas de desenho urbano) que legalizava a operação. O nosso apelo ao diálogo para reduzir a volumetria do edifício foi, pois, obviamente, uma ingenuidade.

Passado um ano e meio, porém, concluída a estrutura do hotel, eis que um vasto coro de vozes se vai erguendo e condenando, em uníssono, a volumetria excessiva do “mastodonte”, do “aborto”, da “monstruosidade”. Que surpresa! Nunca, na nossa ingenuidade, pensamos ser possível ouvir, entoado por tantos, um cântico tão feroz! Afinal tínhamos apenas apelado ao diálogo. Pena o edifício estar de pé e não haver já nada a fazer.... Mas porque entendemos que cabe a uma ordem profissional defender, também, o interesse público, decidimos organizar um debate na nossa sede. Não para culpar políticos ou forças partidárias (uma Ordem não assume posições politico-partidárias) mas na esperança que desse debate resultassem ideias que evitassem a repetição de mais desastres desta natureza. Esteve lá quem quis e todas as opiniões foram ouvidas.

A nossa ficou clara: como ingénuos que somos, preferimos continuar a acreditar que o Funchal não é Playa del Ingles e que as características identitárias que herdou, e o distinguem de todas as outras cidades, devem ser preservadas; preferimos acreditar que é possível transformá-lo, acrescentar-lhe novidades, sem destruir o nexo da sua história e da sua escala urbana. Na verdade, na nossa ingenuidade, preferimos continuar a acreditar nos políticos que elegemos (que são homens como nós), e recusaremos sempre, como reza o ditado, atribuir à malícia ou à venalidade aquilo que cabalmente se pode atribuir à estupidez.

Rui Campos Matos
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