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Fact Check Madeira

Têm os grandes incêndios transformado o centro histórico do Funchal?

Reacendimento do incêndio na Rua da Boa Viagem, no Funchal
Reacendimento do incêndio na Rua da Boa Viagem, no Funchal, Foto Andreia Dias Ferro

Dois incêndios de grandes dimensões atingiram, no espaço de uma semana, edifícios no centro histórico do Funchal. O primeiro, a 18 de Setembro, na Rua do Sabão. O segundo, na noite de 25 para 26, na Rua da Boa Viagem, na Zona Velha.

Nas redes sociais, as notícias deram origem a numerosos comentários que levantam suspeitas sobre as causas dos fogos e o futuro dos imóveis. “Agora já podem construir Hotel ou AL”, escreveu um leitor. Outro resumiu a ideia de transformação do edificado numa frase: “Em breve a zona velha vira zona nova”.

Mas, será que os grandes incêndios que têm atingido o centro histórico do Funchal contribuem para transformar a cidade antiga?

A história deste tipo de acontecimentos é longa. Ainda no século XIX, um grande incêndio impulsionou a organização do combate aos fogos no Funchal. Mais recentemente, em Junho de 1971, o incêndio da Casa das Balanças destruiu cerca de 90% do quarteirão entre as ruas da Alfândega, Esmeraldo e Sabão.

Para verificar a afirmação, recorremos ao arquivo do DIÁRIO e a outras fontes documentais, identificando alguns dos maiores incêndios que ocorrerm no centro histórico depois do 25 de Abril de 1974. Ao mesmo tempo, procurámos perceber o que aconteceu posteriormente aos espaços atingidos.

O caso da Casa das Balanças, embora anterior ao período analisado, é elucidativo. O fogo de 1971 destruiu quase todo um quarteirão da baixa. Anos depois, a área foi alvo de intervenção pública, dando origem à actual Praça de Cristóvão Colombo, mais conhecida como Praça Amarela.

Poucos meses depois do 25 de Abril, a 22 de Outubro de 1974, outro grande incêndio destruiu a antiga Fábrica de São Filipe, onde funcionava a Socarma. Provocou seis feridos graves e demorou dois dias a ser extinto. As ruínas permaneceram durante anos, sendo depois demolidas, em 1989. O espaço serviu como parque de estacionamento e é hoje ocupado pela Praça da Autonomia.

A 13 de Junho de 1986, foi a vez de um edifício histórico da Rua do Esmeraldo. Ali viviam provisoriamente onze famílias, cerca de 35 pessoas. O incêndio provocou um morto, três feridos graves e 14 pessoas receberam assistência hospitalar. Cerca de cem bombeiros combateram as chamas. O prédio, do final do século XVII, tinha a restauração prevista pelo Governo Regional antes do fogo.

O edifício seria posteriormente recuperado e é hoje ocupado pela Secção Regional da Madeira do Tribunal de Contas. As causas do incêndio não foram determinadas. Na altura foi admitido o rebentamento de uma garrafa de gás, mas a própria notícia salientava tratar-se apenas de uma suposição.

Outro grande incêndio ocorreu na madrugada de 2 de Junho de 2007, no edifício do Club Sports Madeira, na Avenida Arriaga. O clube ficou praticamente destruído e a ACIF também foi atingida. Cerca de 40 bombeiros combateram o fogo, evitando que este se propagasse ao Teatro Municipal Baltazar Dias, mesmo ao lado. A investigação da Polícia Judiciária apontou preliminarmente para uma causa acidental, provavelmente um curto-circuito. O edifício histórico foi posteriormente recuperado.

Em Agosto de 2016, os grandes incêndios que começaram nas zonas altas chegaram ao centro da cidade e atingiram também São Pedro. Vários imóveis ficaram fortemente danificados, contando-se, entre eles, a igreja, não tendo o fogo passado do telhado. Alguns foram posteriormente adquiridos pela Câmara para serem reabilitados, nomeadamente para habitação, mas não concretizado.

Em Fevereiro de 2019, um incêndio de grandes proporções atingiu a antiga Insular de Moinhos, junto à Ponte do Bettencourt. O edifício estava devoluto e o fogo foi investigado pela Polícia Judiciária, que chegou a deter um homem suspeito de o ter ateado. No local estava prevista a construção de uma unidade hoteleira, mas vieram as ser construídos apartamentos. No entanto, o projecto do hotel era anterior ao incêndio, estando já anunciado que as obras deveriam começar em 2020. O caso não permite, por isso, estabelecer que tenha sido o fogo a abrir caminho ao empreendimento.

Chegamos aos incêndios deste mês. O da Rua do Sabão ocorreu num prédio devoluto e o da Rua da Boa Viagem num edifício habitacional. Neste último caso, oito pessoas tiveram de ser realojadas. Neste momento, ainda não se sabe qual será o destino dos dois imóveis.

Os casos analisados mostram que os incêndios contribuíram, de facto, para transformar alguns espaços do centro histórico. Na Casa das Balanças e na Socarma desapareceram edifícios e surgiram espaços públicos. Na Rua do Esmeraldo e na Avenida Arriaga, os edifícios foram recuperados. Noutros casos deram-se passos para reabilitações para habitação.

Não encontrámos, porém, um padrão em que aos grandes incêndios se siga a construção de hotéis, alojamentos locais ou outros empreendimentos imobiliários. Também não encontrámos fundamento para relacionar os incêndios analisados com uma intenção de alterar urbanisticamente aqueles espaços.

Pelo exposto, a afirmação de que “em breve a zona velha vira zona nova”, quando associada aos incêndios, é por nós avaliada como imprecisa. Os grandes fogos têm contribuído para alterações no centro histórico, mas os destinos foram muito diferentes e não demonstram um processo sistemático de substituição do património antigo por novos empreendimentos.

“Em breve a zona velha vira zona nova.” – Carapucas (pseudónimo) – Comentário no Facebook