Têm os grandes incêndios transformado o centro histórico do Funchal?
Dois incêndios de grandes dimensões atingiram, no espaço de uma semana, edifícios no centro histórico do Funchal. O primeiro, a 18 de Setembro, na Rua do Sabão. O segundo, na noite de 25 para 26, na Rua da Boa Viagem, na Zona Velha.
Nas redes sociais, as notícias deram origem a numerosos comentários que levantam suspeitas sobre as causas dos fogos e o futuro dos imóveis. “Agora já podem construir Hotel ou AL”, escreveu um leitor. Outro resumiu a ideia de transformação do edificado numa frase: “Em breve a zona velha vira zona nova”.
Mas, será que os grandes incêndios que têm atingido o centro histórico do Funchal contribuem para transformar a cidade antiga?
A história deste tipo de acontecimentos é longa. Ainda no século XIX, um grande incêndio impulsionou a organização do combate aos fogos no Funchal. Mais recentemente, em Junho de 1971, o incêndio da Casa das Balanças destruiu cerca de 90% do quarteirão entre as ruas da Alfândega, Esmeraldo e Sabão.
Para verificar a afirmação, recorremos ao arquivo do DIÁRIO e a outras fontes documentais, identificando alguns dos maiores incêndios que ocorrerm no centro histórico depois do 25 de Abril de 1974. Ao mesmo tempo, procurámos perceber o que aconteceu posteriormente aos espaços atingidos.
O caso da Casa das Balanças, embora anterior ao período analisado, é elucidativo. O fogo de 1971 destruiu quase todo um quarteirão da baixa. Anos depois, a área foi alvo de intervenção pública, dando origem à actual Praça de Cristóvão Colombo, mais conhecida como Praça Amarela.
Poucos meses depois do 25 de Abril, a 22 de Outubro de 1974, outro grande incêndio destruiu a antiga Fábrica de São Filipe, onde funcionava a Socarma. Provocou seis feridos graves e demorou dois dias a ser extinto. As ruínas permaneceram durante anos, sendo depois demolidas, em 1989. O espaço serviu como parque de estacionamento e é hoje ocupado pela Praça da Autonomia.
A 13 de Junho de 1986, foi a vez de um edifício histórico da Rua do Esmeraldo. Ali viviam provisoriamente onze famílias, cerca de 35 pessoas. O incêndio provocou um morto, três feridos graves e 14 pessoas receberam assistência hospitalar. Cerca de cem bombeiros combateram as chamas. O prédio, do final do século XVII, tinha a restauração prevista pelo Governo Regional antes do fogo.
O edifício seria posteriormente recuperado e é hoje ocupado pela Secção Regional da Madeira do Tribunal de Contas. As causas do incêndio não foram determinadas. Na altura foi admitido o rebentamento de uma garrafa de gás, mas a própria notícia salientava tratar-se apenas de uma suposição.
Outro grande incêndio ocorreu na madrugada de 2 de Junho de 2007, no edifício do Club Sports Madeira, na Avenida Arriaga. O clube ficou praticamente destruído e a ACIF também foi atingida. Cerca de 40 bombeiros combateram o fogo, evitando que este se propagasse ao Teatro Municipal Baltazar Dias, mesmo ao lado. A investigação da Polícia Judiciária apontou preliminarmente para uma causa acidental, provavelmente um curto-circuito. O edifício histórico foi posteriormente recuperado.
Em Agosto de 2016, os grandes incêndios que começaram nas zonas altas chegaram ao centro da cidade e atingiram também São Pedro. Vários imóveis ficaram fortemente danificados, contando-se, entre eles, a igreja, não tendo o fogo passado do telhado. Alguns foram posteriormente adquiridos pela Câmara para serem reabilitados, nomeadamente para habitação, mas não concretizado.
Em Fevereiro de 2019, um incêndio de grandes proporções atingiu a antiga Insular de Moinhos, junto à Ponte do Bettencourt. O edifício estava devoluto e o fogo foi investigado pela Polícia Judiciária, que chegou a deter um homem suspeito de o ter ateado. No local estava prevista a construção de uma unidade hoteleira, mas vieram as ser construídos apartamentos. No entanto, o projecto do hotel era anterior ao incêndio, estando já anunciado que as obras deveriam começar em 2020. O caso não permite, por isso, estabelecer que tenha sido o fogo a abrir caminho ao empreendimento.
Chegamos aos incêndios deste mês. O da Rua do Sabão ocorreu num prédio devoluto e o da Rua da Boa Viagem num edifício habitacional. Neste último caso, oito pessoas tiveram de ser realojadas. Neste momento, ainda não se sabe qual será o destino dos dois imóveis.
Os casos analisados mostram que os incêndios contribuíram, de facto, para transformar alguns espaços do centro histórico. Na Casa das Balanças e na Socarma desapareceram edifícios e surgiram espaços públicos. Na Rua do Esmeraldo e na Avenida Arriaga, os edifícios foram recuperados. Noutros casos deram-se passos para reabilitações para habitação.
Não encontrámos, porém, um padrão em que aos grandes incêndios se siga a construção de hotéis, alojamentos locais ou outros empreendimentos imobiliários. Também não encontrámos fundamento para relacionar os incêndios analisados com uma intenção de alterar urbanisticamente aqueles espaços.
Pelo exposto, a afirmação de que “em breve a zona velha vira zona nova”, quando associada aos incêndios, é por nós avaliada como imprecisa. Os grandes fogos têm contribuído para alterações no centro histórico, mas os destinos foram muito diferentes e não demonstram um processo sistemático de substituição do património antigo por novos empreendimentos.