Alicerce

Ouço, nos cafés e nas conversas de rua, uma narrativa que se tornou quase predominante na sua resignação: estamos em declínio. Declínio social, declínio civilizacional, como se atravessássemos uma mutação incompreensível. Acho que nos enganamos ao procurar a solução fora de casa. Ela está cá, sempre esteve, nos alicerces que construímos: a educação. Não falo da educação como simplesmente transmissão de conhecimentos, mas sim como ato de cidadania, como instrumento de consciência. Os nossos programas educativos precisam de continuar a elucidar, de forma persistente, durante toda a escolaridade obrigatória, sobre cidadania, sobre a Constituição que nos governa, sobre valores sociais e morais, isso tudo sem cair em estereótipos dogmáticos, sem impor verdades que se fechem ao diálogo e ao pensamento crítico. Não podemos negligenciar ao falar de identidade, fazendo mera retórica nostálgica. Falamos de raízes. Incutir a valorização da nossa identidade cultural passa pela compreensão do que nos torna únicos. A situação geográfica do nosso território, a nossa insularidade, o nosso património natural, a urgência da conservação ambiental, não apenas como moda ou “agenda” global, mas como imperativa. O nosso mar, a nossa biodiversidade, a nossa “herança”. A dicotomia falsa de que se não abraçarmos a produtividade e a tecnologia, nos condenamos ao atraso, é uma armadilha, e nem a prolificação na produtividade, associada a novas tecnologias, pode ser demonizada, pois é legítima, e necessária. Mas, a nossa relação com os recursos, com a matéria-prima, com a gestão inteligente do que temos, é crucial, e apenas deve ser delegada a interesses internos. Somos turísticos por vocação. Não para a massificação. A alternativa existe, o turismo de nicho, de qualidade, que se dirige a visitantes interessados na sustentabilidade ambiental, nos nichos culturais, na compreensão profunda do lugar. Requer coragem e visão a médio prazo. Significa ser exigente, e seletivo, e esta ação não pode ser vista como se fosse uma medida segregadora. Temos de ser advogados de defesa da propaganda que fazemos, conhecendo profundamente o que oferecemos, e mostrar que vivemos de acordo com os valores que vendemos, clarificando que somos multiculturais, quer queiramos quer não. Devemos aceitar outras culturas, e enriquecer-nos com essa pluralidade. Mas isso não significa diluir-nos. Nesta área territorial todos temos o dever de compreender a cidadania, a constituição, a autonomia que nos governa, acima de tudo a nossa língua. Não é purismo linguístico o conhecimento e a prática da língua mãe, o português. É apenas uma ponte. Uma forma de dizer: vocês pertencem a isto, vocês fazem parte deste “projeto”, mas que projeto é este? É português. É madeirense. É nosso, e agora, também vosso. Não há declínio. Apenas transição, onde as escolhas ainda contam. A educação, alicerce fundamental desta nossa realidade, é a bússola que nos pode reorientar, visando um futuro que nos reconheça como “inteiros”.

Duarte Dusan Santos