Terramoto expôs falhas urbanísticas e defeitos na construção
Um mês depois do duplo sismo que abalou a Venezuela, as falhas de construção na habitação social do regime chavista foram expostas, com centenas de edifícios danificados, e vieram confirmar preocupações antigas de habitantes e especialistas.
O chamadao urbanismo "Hugo Chávez" na cidade de Catia La Mar, a norte de Caracas, foi amplamente afetado pelo duplo sismo no dia 24 de junho, um mês depois, tanto a população como especialistas têm denunciado falhas na construção dos cerca de 3.200 apartamentos.
Situado em Playa Grande, este urbanismo foi promovido pelo antigo presidente venezuelano que acabou por dar nome à empreitada, Hugo Chávez, e inseria-se na 'Gran Mission Vivienda', o enorme projeto de construção social na Venezuela.
O que inicialmente começou por ser um complexo de 1.488 apartamentos antes da reeleição de Chávez em 2012, foi prontamente expandido para 196 prédios de quatro andares, totalizando os cerca de 3.200 apartamentos.
Segundo os relatos recolhidos pela plataforma de jornalismo de investigação venezuelana Armando.info e pela Organized Crime and Corruption Project, que falou com habitantes deste urbanismo, os prédios "afundaram" durante os sismos de 7,2 e 7,5 na escala de Richter.
As fotografias dos prédios, construídos por uma empresa turca que desenvolveu projetos de habitação deste tipo em países como a Líbia durante o regime de Muahmmar Khadafi, foram apresentadas ao presidente do Colégio de Engenheiros do estado Lara, Julio Gutiérrez, que apontou para falhas nas fundações dos edifícios.
Gutiérrez aferiu que, nesse local, "as fundações [dos edifícios] falharam, tendo-os levado a inclinar-se e a afundar".
O engenheiro venezuelano precisou que o facto de os edifícios estarem inclinados devido ao sismo pode indicar que "não foram construídos com alicerces que chegam até ao leito rochoso ou a um leito mais firme", segundo a plataforma venezuelana.
"Presumimos que tenham cedido devido a este efeito", explicou, citado pela Armando.info, acrescentando que, quando as fundações são apenas superficiais "fazem com que a estrutura do edifício comece a afundar-se e a inclinar-se para um lado" durante um sismo, sobretudo em solos com muitos sedimentos, como os da região afetada.
Anos antes do sismo, nomeadamente em 2017, vários residentes do urbanismo já tinham apontado várias falhas estruturais nos edifícios.
Muitas das pessoas que viviam nestes prédios estão agora desalojadas pela segunda vez, sendo que muitos destes residentes tinham perdido as suas casas durante umas cheias violentas na mesma região que provocaram mais de 780 mortos.
As falhas de construção, anos de negligência e de não aplicação de protocolos, bem como de licenciamento precário, são alguns dos problemas elencados por uma reportagem da rádio alemã Deutsche Welle sobre os edifícios de habitação social de "arquitetura chavista" que ruíram com os sismos.
A mesma rádio contactou a arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais que oferecem apoio aos cidadãos, Glennys Gonzalez, que apontou que a avaliação do seu grupo sugere que em muitos casos os protocolos de construção foram ignorados.
Segundo a plataforma de jornalismo de investigação Organized Crime and Corruption Project, a empresa de construção contratada pelo Governo de Chávez que ergueu este urbanismo foi a turca Suma, que desenvolveu também outros projetos noutras regiões do país.
Hugo Chávez terá entrado em contacto com esta empresa turca após uma visita de Estado à Líbia onde visitou projetos de habitação social promovidos pelo ditador líbio Muammar Gaddafi.
Também a Deutsche Welle reportou que muitos blocos de apartamentos foram "construídos rapidamente" por um conjunto de órgãos estatais e empresas da China e da Bielorrússia e com "pouca transparência pública".
Somando às alegadas deficiências de construção, o solo nesta região é uma mistura de areia, cascalho e detritos que aumentam a intensidade e amplificam a vibração quando atingidos por um sismo.
Os sismos registados na Venezuela em 24 de junho causaram pelo menos 5.398 mortos e 16.740 feridos, segundo o mais recente balanço oficial.
Entre os mortos, há pelo menos 133 portugueses e lusodescendentes, e outros 21 estão desaparecidos.
Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.
Os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.