Madeirense médio "não pode ir aos restaurantes como há dois anos", admite ACIF
O reconhecimento do aumento da desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres e da inacessibilidade crescente da restauração madeirense para as famílias de classe média e média-baixa foram os dois pontos fortes da intervenção do chef Júlio Pereira, representante da Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF), esta manhã, nas Jornadas Parlamentares dedicadas ao "Custo de vida na Madeira: respostas para quem cá vive".
Numa admissão pouco comum vinda do sector empresarial, Júlio Pereira reconheceu que uma fatia significativa da população deixou de conseguir acompanhar os preços praticados nos restaurantes da Região. Segundo o representante da ACIF, a classe média e média-baixa "não pode ir aos restaurantes da forma como iria o ano passado ou há dois anos". "Não vai dar", reforçou. O responsável associou este afastamento ao aumento sucessivo dos custos das matérias-primas, como frango, carne e peixe, encargos que os próprios restaurantes já não conseguem absorver nem repassar integralmente aos clientes sem os afastar ainda mais.
Para ilustrar a pressão sobre o bolso dos madeirenses, Júlio Pereira comparou os preços da restauração aos do supermercado. Um carrinho de compras básico já ronda os 60 euros, e chega apenas para dois dias de alimentação. Segundo disse, muitos associados da ACIF relatam já não ter margem para repercutir nos preços dos restaurantes todo o aumento sentido nos custos com os alimentos.
Este afastamento entre restauração e classe média insere-se, segundo o chef, num fenómeno mais amplo de "descolar" entre dois segmentos da sociedade madeirense. Há um segmento com poder de compra reforçado, alimentado por exemplo pelo 'boom' do Alojamento Local. E há outro segmento cada vez com menos capacidade financeira. Os primeiros continuam a viajar e a gastar. A prova disso é que os portugueses fizeram este ano cerca de 4 milhões de viagens, um número recorde.
Júlio Pereira alertou ainda que o aumento salarial previsto para Janeiro, de 70 euros a mais para os trabalhadores, representa um custo de 86 euros por trabalhador para as empresas, que só têm uma forma de o cobrir, que é subir os preços. "O modelo de economia que nós temos vai ter de ser pensado de novo", terminou.