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Quanto tempo mais Portugal aguenta?

PS, PSD e Chega andam numa disputa quase febril pelos pensionistas, cada um segundo as suas conveniências e os seus fantasmas

Andamos há demasiado tempo a discutir assuntos que pouco interessam ao futuro do país, mas que alimentam generosamente a espuma de cada dia - que é como quem diz, dão audiência -, e vamos deixando para trás, com uma serenidade inquietante, aquilo de que Portugal verdadeiramente precisa.

O debate público vive refém das novelas e da controvérsia, enquanto os problemas que se foram acumulando ao longo de décadas permanecem por resolver, normalmente porque tocar-lhes tem um custo político que poucos estão dispostos a pagar.

Quando finalmente a política é obrigada a deixar os fait-divers e a meter os olhos sobre aquilo que condicionará a vida do país, o enfado instala-se com uma rapidez ironicamente cómica. A reforma laboral mal entrou verdadeiramente na discussão pública e já se ouvia o suspiro dos fatigados, “já não se pode ouvir falar disto”.

O conteúdo acaba soterrado pela habitual intriga política, discute-se quem cede, quem aceita, quem negoceia, o que fará Belém, e permanece incólume aquilo que nos deveria ocupar - a produtividade cronicamente baixa, o valor que atribuímos ao trabalho e a pergunta, bastante menos confortável, sobre como poderá Portugal pagar melhores salários sem produzir mais riqueza.

Quanto tempo mais consegue Portugal respirar sem mudar?

A resposta parece interessar pouco e, quando finalmente abandonamos a espuma, tropeçamos noutra velha especialidade portuguesa, os temas que ganharam o estatuto de vacas sagradas do regime - matérias sobre as quais todos reconhecem um problema desde que ninguém tenha a ousadia de discutir a solução. A Segurança Social ocupa um lugar cimeiro nesse altar, tudo por conveniência eleitoral - talvez porque Portugal carregue um problema demográfico profundo e a aritmética eleitoral tenha horizontes bastante mais curtos do que a demografia. Num país envelhecido, governar de olhos postos em quem decide eleições tornou-se uma tentação demasiado confortável, enquanto quem ainda tem décadas de vida pela frente vai ficando condenado a suportar escolhas feitas para o presente. Começa, por isso, a ser quase insultuoso ser jovem em Portugal.

PS, PSD e Chega andam numa disputa quase febril pelos pensionistas, cada um segundo as suas conveniências e os seus fantasmas, uns procurando conservar uma base eleitoral historicamente decisiva, outros tentando alargá-la, outros ainda entregues ao conhecido proselitismo das promessas cuja conta ficará, como sempre, para alguém pagar depois.

O exemplo mais evidente deste desapego pelos jovens talvez esteja na facilidade com que gerações anteriores, que nos entregam um país carregado de problemas que elas próprias foram adiando, aparecem agora a explicar aos mais novos como devem resignar-se às dificuldades. Comprar casa tornou-se um exercício hercúleo para milhares de jovens, e, quando a garantia pública começou finalmente a permitir que jovens sem o capital necessário para uma entrada conseguissem chegar ao crédito, apareceram de imediato as habituais carpideiras do desastre. Bastou a medida começar a produzir efeitos para surgir a sentença de que estaria a fazer subir os preços das casas, como se o mercado imobiliário tivesse vivido numa beatitude de preços módicos até à entrada em vigor da garantia pública.

Antes dela, o culpado de serviço era o alojamento local, só que a realidade corta o juízo aos sapientes do regime. Lisboa perdeu mais de oito mil registos de alojamento local desde a pandemia e os preços de venda continuaram a subir, e isso faz pensar que, muito possivelmente, o problema da habitação seja, imagine-se o escândalo, bastante mais complexo do que o espantalho escolhido em cada estação.

E, no meio de problemas estruturais, há perplexidades absolutamente indecifráveis. Façamos uma conta simples. Um trabalhador em Portugal Continental, sem dependentes, recebe o salário mínimo de 920 euros e consegue um aumento de 150 euros brutos. À partida, parece uma boa notícia, até que entra o Estado. Dos 150 euros de aumento, o trabalhador leva para casa aproximadamente 68. À empresa, esse aumento custa perto de 186 euros. E, pelo meio, o Estado consegue arrecadar cerca de 117 euros entre contribuições e retenção de IRS. Ou seja, o trabalhador conquista um cupcake, o Estado come a maior parte e devolve-lhe as migalhas, como se tivesse sido ele a penar para o conseguir.

Podemos, evidentemente, continuar a discutir uma piscina que outrora foi um tanque, porque a ética na política tem o seu peso. Podemos continuar entretidos com o carro do Xuxas ou com a indignação noticiada no dia. A questão é saber durante quanto tempo mais podemos pagar este luxo, porque esta geração também terá um dia de responder pelo país que deixou - e, o maior opróbrio seria chegarmos lá, olharmos para quem vem depois de nós e descobrirmos que, depois de tanta indignação, fizemos exatamente o mesmo que hoje censuramos aos que vieram antes.