A nossa terra
O verão ocupa um lugar singular no roteiro do emigrante. É o tempo do regresso à terra, de reencontrar familiares e amigos, e de revisitar paisagens que continuam nossas, imunes à passagem dos anos e à distância. É também a época em que, um pouco por toda a Madeira, se multiplicam as celebrações dedicadas à nossa diáspora.
O concelho de Santana conhece bem esta realidade. Durante gerações, muitos dos seus habitantes procuraram além-fronteiras as oportunidades que a ilha lhes recusava. Os destinos variaram com o tempo, assim como as circunstâncias de quem sai, mas a partida permanece inscrita na história de quase todas as famílias.
Por essa razão, iniciativas como a “Nossa Terra, Nosso Encontro”, que integra o XXII Encontro de Emigrantes de São Roque do Faial, transcendem a mera celebração de um dia. Representam o justo reconhecimento pelo que os emigrantes ergueram lá fora e pelo contributo decisivo prestado às sociedades de acolhimento. Ao mesmo tempo, assinalam o papel insubstituível destes conterrâneos como embaixadores da cultura madeirense, transportando consigo sabores, tradições, memórias e um pulsar muito próprio da nossa identidade.
O desafio reside, contudo, nas gerações seguintes. À medida que o tempo passa, os laços familiares tendem a esbater-se. Há jovens descendentes que raramente regressam e outros que nunca chegaram a pisar o solo insular, conhecendo-o apenas por relatos orais ou fotografias antigas. Conhecem a Madeira através de fotografias e histórias familiares, muitas vezes histórias de uma ilha que já não existe exatamente como lhes foi contada.
Se é verdade que a nossa rede associativa e os centros de cultura madeirense pelo mundo mantêm um trabalho admirável, torna-se urgente desenhar novas pontes para atrair filhos, netos e bisnetos. Trata-se de ir além da preservação da memória da partida: impõe-se integrar plenamente a diáspora na construção do presente e no futuro da Região.
Em São Roque do Faial, à semelhança de tantas outras freguesias, o número de naturais e luso-descendentes a viver no exterior supera com facilidade a população residente. Ainda que alguns nunca tenham caminhado pelas suas levadas e encostas, a freguesia habita o seu imaginário cultural e afetivo, porque a pertença também se herda, se conta e se reinventa.
Talvez seja esse o verdadeiro valor de encontros como o “Nossa Terra, Nosso Encontro”. Mesmo que aconteçam apenas uma vez por ano, recordam-nos que partir não significa necessariamente deixar de pertencer. Para nós, emigrantes, há algo profundamente reconfortante em saber que, quando voltamos, aquela continua a ser a nossa terra, a nossa história e o nosso lugar.