Lembrando Luís Alberto Figueira Gonçalves Jardim

Anteontem, a Madeira viveu duas datas sobrepostas: o dia em que o nosso pai celebraria 76 anos, e o dia em que se cumpre um ano desde que partiu. Há uma expressão inglesa - better late than never - que tenta consolar atrasos.

Mas neste caso, este texto deveria ter sido escrito muito antes.

Ainda assim, escrevê-lo agora é um gesto de amor que não conhece relógio.

Luiz Alberto Figueira Gonçalves Jardim não foi apenas músico.

Um rapaz de 14 anos que, com a ousadia dos que não aceitam fronteiras, deixou a Madeira para perseguir um sonho que parecia grande demais para caber numa ilha.

Com coragem, carisma e um talento que não se ensinava em escolas, ele entrou no coração da música contemporânea mundial.Tocou, criou, produziu, moldou sons que hoje pertencem à memória coletiva.

Rolling Stones.

Paul McCartney.

Tina Turner.

Elton John.

George Michael.

Annie Lennox.

Eurythmics.

Seal.

Robbie Williams.

Coldplay.

Billie Eilish.

Bjork.

Smokey Robinson.

E tantos outros que fazem parte da constelação musical do último meio século.

O nome dele aparece em quase 10.000 discos - como músico, percussionista, produtor, baixista, alquimista de sons.

Ao lado de Trevor Horn - um dos maiores produtores internacionais - o nosso pai integrou um círculo restrito de criadores que definiram a música pop britânica dos anos 80 e além.

Trabalhou com Hans Zimmer, o compositor que hoje dá voz aos filmes que o mundo inteiro vê.

E, mesmo assim, nunca deixou de ser o rapaz da Madeira.

Em Portugal, colaborou com Rui Veloso, João Pedro Pais e tantos outros artistas que moldaram a identidade musical do país.

Nos últimos anos, regressou à Madeira - não como quem volta, mas como quem reencontra.

Viveu três anos junto da mãe, depois de quarenta de ausência.

Levou bandas madeirenses para Londres, ajudou movimentos políticos e culturais regionais, ofereceu música em momentos de crise, e nunca, nunca esqueceu a terra que lhe ensinou o primeiro acorde.

A iniciativa do Governo Regional da Madeira, sob a liderança do Excelentíssimo Sr. Presidente Miguel Albuquerque, não foi apenas um tributo.

Foi um ato de justiça poética. Foi a Madeira a dizer:

“Nós lembramos. Nós reconhecemos. Nós agradecemos.”

José Pereira, produtor e músico, criou um espetáculo com artistas regionais de altíssimo nível, transformando o palco num altar de memória.

A Secretaria de Inclusão, liderada pela Dra. Paula Margarido, foi incansável, humana, presente - como se soubesse que este concerto não era apenas um evento, mas uma despedida que precisava de ser digna.

Trevor Horn e Steve Hogarth trouxeram o toque internacional, João Pedro Pais a parte nacional, que espelhava a vida do nosso pai: uma ponte entre a Madeira e o mundo.

Registar o trabalho do nosso pai nos arquivos regionais é mais do que preservar história.

É ensinar aos jovens que o mundo é maior do que o medo, que vale a pena arriscar.

Nunca esqueceremos o gesto do Sr. Presidente Miguel Albuquerque, do Governo Regional, e de toda a população que reconheceu o valor de um homem que levou a Madeira para o mundo e trouxe o mundo de volta para a Madeira.

Só iria acrescentar um profundo agradecimento ao Governo Regional da Madeira por terem homenageado o nosso pai; ao Luís Nunes, da Delta Som; ao Paulo Ferraz; ao José Pereira; aos músicos e artistas regionais, nacionais e internacionais; e, principalmente, ao Excelentíssimo Senhor Presidente da Região Autónoma da Madeira, Dr. Miguel Albuquerque. Agradeço também a todos os que assistiram ao tributo — entidades e representantes oficiais, familiares e público.

Nunca iremos esquecer. Obrigada a todos os que trabalharam para que este evento se realizasse.

Obrigada Madeira

Rebecca Jenny Gonçalves Jardim