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O meu esforço conta para o clima?

Saiba o que é a pegada carbónica, como pode ser reduzida e qual o verdadeiro impacto das escolhas individuais

A exposição ‘A Geração que Age’ pode ser visitada, até 12 de Julho, no MadeiraShopping
A exposição ‘A Geração que Age’ pode ser visitada, até 12 de Julho, no MadeiraShopping, Foto Helder Santos/Aspress

O projecto ‘Greener Act nas Escolas’ desafiou cerca de 170 jovens da Escola Profissional Atlântico a adoptar hábitos mais sustentáveis e a reduzir a sua pegada carbónica

Os alunos da Escola Profissional Atlântico passaram os últimos meses a medir o impacto das suas escolhas no ambiente. Através da plataforma digital Greener Act, cerca de 170 jovens participaram num projecto-piloto que os incentivou a adoptar hábitos mais sustentáveis e a reduzir a sua pegada carbónica.

A iniciativa, que culminou na passada sexta-feira com a inauguração de uma exposição e a entrega de prémios aos participantes mais empenhados, voltou a colocar em destaque um conceito cada vez mais presente no debate sobre as alterações climáticas.

“Os desafios não são do futuro, os desafios são actuais”

Nova exposição no MadeiraShopping mostra o impacto ecológico dos estudantes da Região

Mas o que significa, afinal, ter uma pegada carbónica elevada? Como é feito esse cálculo e até que ponto as decisões de cada cidadão podem fazer a diferença?

O que é a pegada carbónica?

A pegada carbónica é uma medida que calcula o impacte das actividades humanas na emissão de gases com efeito de estufa (GEE), como o dióxido de carbono (CO₂), o metano ou o óxido nitroso. Habitualmente expressa em toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO₂eq), permite quantificar e comparar o efeito destes diferentes gases no aquecimento global através de uma unidade comum.

A pegada pode ser calculada para indivíduos, famílias, empresas, produtos ou até países, tendo em conta aspectos como os transportes utilizados, o consumo de energia ou os hábitos alimentares.

Dependendo do objectivo da análise, pode ser avaliada para um acontecimento específico, como uma viagem, para um período de um ano ou, no caso de um produto, ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde o fabrico até ao tratamento dos resíduos.

Como se calcula?

A pegada carbónica pessoal não é calculada através de uma conta exacta, mas sim de uma estimativa baseada nos hábitos de cada pessoa. Para determinar esse valor, são considerados vários factores do quotidiano, como os quilómetros percorridos de automóvel ao longo do ano, a frequência das viagens de avião, o consumo de carne e outros produtos de origem animal, bem como os gastos de electricidade e gás na habitação. Com base nestes dados, é possível obter uma aproximação da quantidade de gases com efeito de estufa gerada pelas actividades de cada indivíduo.

Actualmente, existem diversas calculadoras on-line gratuitas que permitem efectuar este cálculo de forma simples, sendo utilizadas por cidadãos, escolas e empresas para conhecer melhor o seu impacto ambiental e identificar formas de o reduzir.

Em Portugal, uma das ferramentas mais utilizadas é a calculadora do projecto Get2Zero for People, desenvolvida para cidadãos, escolas e municípios.

Os portugueses poluem muito?

Quando se fala de pegada carbónica, Portugal surge frequentemente como um dos exemplos mais positivos da União Europeia. Segundo dados divulgados pelo Eurostat, a pegada de gases com efeito de estufa associada ao consumo de bens e serviços foi, em 2023, de 6,5 toneladas de CO₂ equivalente por habitante, a mais baixa entre os Estados-membros da União Europeia. No mesmo período, a média comunitária fixou-se nas 9 toneladas por pessoa.

Este indicador não mede apenas as emissões produzidas dentro das fronteiras nacionais. Inclui também as emissões geradas ao longo das cadeias de produção dos bens e serviços consumidos pelos portugueses, mesmo quando esses produtos são fabricados noutros países. Por outras palavras, contabiliza a pegada associada ao nosso estilo de vida e aos nossos hábitos de consumo.

Apesar deste desempenho favorável no contexto europeu, Portugal continua longe dos níveis considerados compatíveis com os objectivos climáticos globais. Dados do projecto europeu PSLifestyle, coordenado em Portugal pela DECO, apontam para uma pegada carbónica média de cerca de 8,7 toneladas de CO₂ equivalente por pessoa e por ano. O valor é mais de três vezes superior à meta de 2,5 toneladas por habitante utilizada como referência para um estilo de vida compatível com o objectivo de limitar o aquecimento global a 1,5 ºC previsto no Acordo de Paris.

Onde está o maior peso da nossa pegada?

Os estudos sobre os hábitos de consumo em Portugal apontam dois sectores como os principais responsáveis pelas emissões associadas ao cidadão comum.

O primeiro é o dos transportes. O uso diário do automóvel, aliado às viagens aéreas, representa uma das maiores parcelas da pegada carbónica individual.

O segundo é a alimentação, sobretudo devido ao consumo de carne e de produtos lácteos, cuja produção gera emissões significativas de gases com efeito de estufa.

Por isso, as medidas que normalmente produzem maiores reduções na pegada pessoal passam precisamente por reduzir o uso do carro, recorrer mais aos transportes públicos, evitar voos sempre que possível e diminuir o consumo de carne vermelha.

Estas mudanças tendem a ter um impacto muito superior ao de outras acções frequentemente associadas à sustentabilidade, como a substituição de lâmpadas ou a reciclagem doméstica, embora estas também contribuam para reduzir o impacto ambiental global.

AS MUDANÇAS QUE MAIS REDUZEM A PEGADA

- Viver sem carro: até 2,4 toneladas de CO₂ por ano

- Evitar um voo transatlântico: cerca de 1,6 toneladas

- Adoptar uma alimentação de base vegetal: até 2,5 toneladas por ano

- Melhorar a eficiência energética da casa: até 3 toneladas por ano

Se as empresas poluem mais, vale a pena mudar hábitos?

Grande parte das emissões mundiais está associada à produção de combustíveis fósseis e à indústria pesada. De acordo com a base de dados internacional Carbon Majors, apenas 32 grandes empresas produtoras de combustíveis fósseis e cimento são historicamente responsáveis por cerca de metade das emissões globais de dióxido de carbono desde a Revolução Industrial.

À primeira vista, estes dados podem levar à conclusão de que os gestos individuais têm pouca importância. Contudo, os especialistas lembram que estas empresas produzem energia, combustíveis e matérias-primas para satisfazer a procura da sociedade. Quando milhões de consumidores alteram hábitos – optando por transportes públicos, reduzindo o consumo de carne ou escolhendo produtos mais sustentáveis – acabam por influenciar o mercado e pressionar empresas e governos a adaptarem-se.

Além disso, iniciativas como a desenvolvida pela Escola Profissional Atlântico têm um efeito multiplicador. Ao criar consciência ambiental junto dos jovens, aumentam também a pressão social para a adopção de políticas públicas mais ambiciosas no combate às alterações climáticas.

Elsa Fernandes defendeu, a propósito, que governos e empresas têm um papel determinante, mas sublinhou que “a acção individual, a agência individual é de facto importantíssima”.

"Os desafios não são do futuro, os desafios são actuais", reforçou a secretária Regional de Educação, Ciência e Tecnologia, enfatizando que esta consciência deve começar a ser trabalhada desde cedo junto das crianças e dos jovens, através da valorização de cada pequeno gesto do quotidiano.