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Reedição de 'Canhenhos da Ilha' facilita a preservação da memória de uma Madeira que já desapareceu

Apresentação do novo livro esteve a cargo do filho do autor, Horácio Bento Gouveia. 
Apresentação do novo livro esteve a cargo do filho do autor, Horácio Bento Gouveia. , Foto DR/SRTAC

Foi apresentada, esta tarde, a reedição do livro 'Canhenhos da Ilha', de Horácio Bento de Gouveia. Na ocasião, o filho do escritor fez questão de notar que o termo 'canhenhos' designa um livro de lembranças ou de memórias.

Conforme evidenciou, a publicação reúne cerca de uma centena de textos originalmente publicados no 'Diário de Notícias', escritos que preservam para a posteridade diversos aspectos da vida na Madeira até à década de 1960.

E foi com a leitura de alguns excertos de 'Roteiro Sentimental', um dos textos incluídos no livro, dedicado à cidade do Funchal, que Horácio Bento de Gouveia, filho, procurou cativar o público presente para a leitura da obra agora reeditada. 

Já o secretário regional de Turismo, Ambiente e Cultura defendeu que a reedição de 'Canhenhos da Ilha' contribui para preservar a memória colectiva da Madeira e aproximar novos leitores de uma obra que retrata, com grande detalhe, a sociedade e a cultura madeirenses de outros tempos.

Na apresentação da nova edição, promovida pela Direcção Regional da Cultura, Eduardo Jesus descreveu a obra como "um roteiro de saudade", recuperando a expressão utilizada pelo próprio escritor, e destacou a capacidade de observação de Horácio Bento de Gouveia, que permitiu deixar um retrato fiel da realidade da época.

"O facto de ter deixado escrito poupa-nos hoje muito tempo para imaginarmos o que seriam a cidade do Funchal e os valores desse tempo", afirmou, considerando que os textos constituem "quadros fiéis da sociedade, da cultura e do próprio tempo em que viveu", assumindo-se como um "referencial muito autêntico" da história da Madeira.

O governante sublinhou ainda que esta edição ganha um valor acrescido pelas ilustrações de António Aragão, outro nome maior da cultura madeirense. Segundo referiu, o artista foi também um observador atento e um criador irreverente, cujo traço continua a suscitar diferentes interpretações.

Durante a sessão, Eduardo Jesus fez igualmente um ponto de situação sobre o programa de reedição da obra de Horácio Bento de Gouveia, que prevê a publicação de nove títulos, sete romances e duas obras de crónicas. Depois de 'Lágrimas Correndo Mundo', 'Luísa Marta' e, agora, 'Canhenhos da Ilha', a próxima reedição será 'Águas Mansas'.

O secretário reconheceu que houve atrasos em 2024 e 2025 no calendário inicialmente previsto, mas garantiu que o compromisso será cumprido. "Em 2026 saem duas obras e queremos que em 2027 também seja possível lançar outras duas, fazendo com que nesse ano todo o compromisso assumido possa estar devidamente honrado", afirmou.

Eduardo Jesus agradeceu ainda à família do escritor a disponibilidade para concretizar o projecto, defendendo que a reedição das obras é essencial para evitar que o legado literário fique limitado aos investigadores e especialistas.

"As obras, se não forem reeditadas, analisadas, lidas e divulgadas, acabam por ser esquecidas", alertou, acrescentando que este património deve fazer parte da cultura geral e estar acessível a todos os leitores.

Para o governante, a escrita de Horácio Bento de Gouveia permite ao leitor viajar até uma Madeira profundamente diferente da actual. "É quase possível cheirar o ambiente daquela altura", afirmou, salientando a riqueza descritiva do autor e a forma como os seus textos proporcionam uma verdadeira viagem sensorial pela ilha de há cerca de um século.