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Não nos habituemos

Pergunto-me se a sucessão constante de tragédias nos estará a habituar ao sofrimento dos outros, roubando-nos, pouco a pouco, a capacidade de sentir

“Até junho de 2026, quatro crianças perderam a vida em Portugal em contextos de violência familiar. Este número igualou o registo mais negro de óbitos de menores desde 2019. A negligência e os maus-tratos graves motivam cerca de 70% das decisões de acolhimento de crianças e jovens em Portugal.”

Nem todas as notícias desaparecem quando passam do ecrã. Algumas permanecem connosco. Acompanham-nos no silêncio, interrompem-nos o pensamento e instalam-se naquele lugar onde as perguntas raramente encontram resposta. Tem sido assim comigo.

Confesso que, nos últimos tempos, tenho sentido um peso difícil de explicar. Uma sensação incómoda de que estamos, aos poucos, a perder alguma coisa essencial. Como se estivéssemos a desaprender aquilo que nos tornou humanos: a capacidade de sentir empatia. O perigo começa quando a dor dos outros deixa de interromper o nosso dia.

Há coisas que nenhuma inovação tecnológica conseguirá devolver. Ainda assim, temos o hábito de medir o progresso pelos números: economia, ciência, infraestruturas... Mas, para mim, o verdadeiro grau de desenvolvimento de uma sociedade descobre-se noutro lugar. Na forma como protege quem nada pode oferecer em troca, como cuida das pessoas mais vulneráveis e como olha para uma criança.

E depois chegam as notícias dos últimos meses. Diferentes entre si, mas unidas pela mesma violência. Duas crianças abandonadas no meio do nada. Uma criança morta pela madrasta. E uma menina de quatro anos morta pelo próprio pai. Uma criança devia ser sempre uma interrupção no mundo. Quando deixa de o ser, é porque algo já se perdeu em nós.

Há algo profundamente inquietante na rapidez com que estas tragédias desaparecem da conversa pública. Durante um ou dois dias indignamo-nos. Depois a vida continua. Surge outra notícia. Outra urgência. Outra catástrofe. Pergunto-me se a sucessão constante de tragédias nos estará a habituar ao sofrimento dos outros, roubando-nos, pouco a pouco, a capacidade de sentir. E essa possibilidade assusta-me mais do que qualquer estatística. Habituar-se é quando a dor dos outros já não levanta o olhar do ecrã.

A empatia nunca foi um sinal de fragilidade. É ela que impede que a dor dos outros se transforme apenas em mais uma notícia. Que nos faz intervir quando percebemos que alguém precisa de ajuda. Sem ela, resta apenas um conjunto de pessoas que coexistem, mas já não vivem verdadeiramente em comunidade.

As crianças são o nosso compromisso mais sério com o futuro. Não têm voz suficiente para exigir proteção, nem força para escapar sozinhas ao perigo. Dependem da responsabilidade de toda a sociedade.

Gostava de acreditar que ainda vamos a tempo de responder com ações, porque o contrário significaria aceitar que estamos a perder aquilo que nenhuma riqueza, nenhum progresso e nenhuma tecnologia conseguem substituir. Que humanidade estamos a construir? Não nos habituemos.

Antes de terminar, deixo também uma palavra de solidariedade ao povo venezuelano e às famílias de todas as vítimas, com o desejo de que encontrem força para superar a enorme tragédia que atingiu um país tão próximo do nosso coração.