Há enfermeiros suficientes na Madeira: então porque faltam nos hospitais e centros de saúde?
À primeira vista, os números parecem tranquilizadores. A Madeira tem cerca de 2.700 enfermeiros inscritos na Ordem dos Enfermeiros, o que representa um rácio superior a 10 enfermeiros por mil habitantes, acima da média da OCDE. No papel, a Região parece bem servida.
Mas a realidade que os utentes encontram nos hospitais e centros de saúde é diferente.
No SESARAM, principal responsável pela prestação de cuidados públicos à população, trabalham pouco mais de 2.000 enfermeiros. Quando analisamos apenas os profissionais disponíveis no serviço público, o rácio desce para cerca de 7,7 enfermeiros por mil habitantes, abaixo dos valores médios da OCDE, situados entre 9 e 9,5 por mil habitantes.
Isto significa que o problema da Madeira não parece ser a falta de enfermeiros na Região. O verdadeiro problema é a falta de enfermeiros no sistema público.
A diferença pode parecer técnica, mas tem consequências muito concretas. Traduz-se em equipas mais pressionadas, maior dificuldade em preencher escalas, menos tempo para acompanhar os doentes e mais desgaste para quem trabalha diariamente nos serviços.
E existe um fator adicional que deveria preocupar decisores e cidadãos: o envelhecimento da profissão. Os dados nacionais mostram que uma parte significativa dos enfermeiros tem mais de 55 anos e aproxima-se da reforma. Aplicando esta realidade à Madeira, estima-se que, nos próximos cinco anos, várias centenas de profissionais possam abandonar a atividade.
Ou seja, não estamos apenas perante um défice atual. Estamos perante um problema que poderá agravar-se num futuro próximo.
Importa recordar que o enfermeiro não é apenas quem administra medicação ou executa procedimentos. É o profissional que vigia o estado clínico do doente, previne complicações, apoia famílias e assegura a continuidade dos cuidados. Muitas vezes, é a pessoa que está mais próxima do cidadão nos momentos de maior vulnerabilidade.
Quando faltam enfermeiros, perde-se mais do que capacidade técnica. Perde-se proximidade, tempo de cuidado e segurança.
Por isso, a questão central não é quantos enfermeiros existem na Madeira, mas porque não consegue o sistema público atrair, fixar e valorizar os profissionais de que necessita.
Os dados são conhecidos há vários anos. As tendências demográficas são previsíveis. O envelhecimento das equipas não é uma surpresa. Ainda assim, continua a faltar uma estratégia robusta para responder ao problema.
Mais do que anúncios ou discursos sobre o bom funcionamento do sistema, exige-se planeamento, visão e coragem política. Porque a verdadeira medida de um sistema de saúde não está no número de profissionais inscritos numa lista, mas no número de profissionais efetivamente disponíveis quando a população precisa deles.
A evidência internacional é clara: sistemas com dotações adequadas de enfermeiros apresentam menor mortalidade, menos complicações, internamentos mais curtos e maiores níveis de satisfação dos utentes. Investir em enfermagem não é apenas investir nos profissionais; é investir diretamente nos ganhos em saúde da população.
No final, a questão é simples: quando um cidadão precisa de cuidados, não são os rácios globais que fazem a diferença.
São os enfermeiros que estão presentes para cuidar.
F.R.