Porque estamos lá
Consolar os aflitos e inquietar os confortáveis
“O meu trabalho é dar testemunho.” A frase é de Marie Colvin e talvez explique a profissão de jornalista melhor do que páginas inteiras de teoria.
Esta semana, a propósito da catástrofe na Venezuela, perguntaram-me:
“Rita, mas não há jornalistas naquele país? Porque é que têm de enviar jornalistas daqui? E porque é que não vão quando não há sismos?”
Não foi a primeira vez que ouvi estas perguntas. E percebi, mais uma vez, que continua a não ser claro qual é, afinal, o papel do jornalismo.
Os jornalistas não vão para o terreno substituir bombeiros, médicos ou equipas de resgate. Não é essa a nossa função. Fazemos aquilo que só o jornalismo pode fazer: testemunhar.
Há jornalistas naquele país? Claro que há. E ainda bem.
São eles que conhecem a língua, a cultura, as pessoas e o território. São quase sempre os primeiros a chegar, muitas vezes quando também perderam familiares, amigos ou a própria casa. Sem o trabalho dos jornalistas locais, o dos jornalistas internacionais seria incomparavelmente mais difícil.
Então porque é que as redações enviam jornalistas de outros países?
Porque a realidade nunca cabe num único olhar.
Existe uma diferença essencial entre repetir informação e verificá-la.
Aprendi isso no terreno. Não é que os comunicados mintam. Mas só contam um lado da história, o de quem os escreveu.
Num cenário de catástrofe, os números mudam de hora a hora. As versões contradizem-se. As redes sociais amplificam rumores. A emoção ocupa, muitas vezes, o lugar dos factos. É aí que o jornalismo se torna mais urgente.
É no terreno que se percebe se os números oficiais correspondem à realidade. Se um hospital continua a funcionar. Se ainda há combustível para as ambulâncias. Se chegou água potável. Se existem medicamentos. Se a ajuda anunciada chegou, afinal, às pessoas que perderam tudo.
Porque anunciar ajuda não significa, necessariamente, entregá-la.
Ao longo da História, foram jornalistas presentes no terreno que denunciaram desvios de ajuda humanitária, crimes de guerra, violações dos direitos humanos, desaparecimentos, tráfico de pessoas, crianças separadas das famílias e tantas outras realidades que dificilmente chegariam ao conhecimento do mundo através de comunicados oficiais. Quase nunca estas histórias começam num gabinete. Começam quando alguém decide ir ver.
Há outra razão.
Nem todos os países garantem liberdade de imprensa.
Em muitos lugares, os jornalistas trabalham sob vigilância, intimidação ou ameaça. Outros exercem a profissão em órgãos de comunicação condicionados pelo poder político, económico ou militar. Há também quem faça jornalismo independente sabendo que cada reportagem pode custar a liberdade ou, por vezes, a própria vida.
Nada disto diminui o valor dos jornalistas locais. Pelo contrário.
A presença de jornalistas internacionais não significa desconfiança. Significa mais escrutínio. Mais perguntas. Mais possibilidades de confirmar os mesmos factos.
A verdade gosta de várias testemunhas.
Para nós, portugueses, existe ainda uma razão muito objetiva.
Portugal tem uma das maiores comunidades de origem portuguesa na Venezuela, profundamente ligada à Madeira. Quando a terra treme na Venezuela, também tremem os corações de milhares de famílias portuguesas que esperam notícias de filhos, pais, irmãos, avós ou amigos.
Para essas pessoas, aquela não é uma notícia internacional. É uma notícia de casa.
É isso que o jornalismo de proximidade procura fazer: explicar porque é que um acontecimento a milhares de quilómetros pode atravessar um oceano e entrar, de repente, na sala de uma família portuguesa.
Ouvi também outra pergunta:
“Porque é que não vão quando não há sismos? A miséria continua a existir.”
É uma pergunta justa. E merece uma resposta honesta.
Há jornalistas que passam anos a acompanhar guerras esquecidas, fome, pobreza, migrações e crises humanitárias que raramente chegam às primeiras páginas. Mas também é verdade que as grandes catástrofes mobilizam meios humanos e financeiros que poucas redações conseguem manter durante muito tempo.
O jornalismo também vive condicionado por recursos. E por escolhas.
As redações escolhem. Quem consome notícias também.
Escolhemos quando clicamos numa notícia e ignoramos outra. Quando vemos um vídeo até ao fim. Quando partilhamos uma história e deixamos outra desaparecer.
Em democracia, a atenção também é uma forma de escolha.
Gostaria que o jornalismo pudesse estar presente em todas as crises esquecidas do mundo. Que houvesse equipas permanentes a acompanhar a fome, a pobreza extrema, os refugiados e as consequências silenciosas dos conflitos. Sonho com esse dia.
Só que quando a terra treme, ou quando uma guerra começa, existe uma urgência diferente.
As primeiras horas são também aquelas em que a verdade corre maior risco de desaparecer entre o caos, a propaganda e a desinformação.
Hoje qualquer pessoa consegue publicar um vídeo. Qualquer fotografia pode ser manipulada. Qualquer mentira pode dar a volta ao mundo em poucos minutos.
Mas nenhuma tecnologia substitui a presença.
Um satélite mostra uma cidade destruída. Um drone sobrevoa um bairro reduzido a escombros. Mas nenhum deles consegue perguntar a uma mãe onde viu o filho pela última vez. Nenhum percebe o silêncio antes da resposta. Nenhum confirma se aquele nome escrito numa folha corresponde, afinal, a uma pessoa.
É por isso que continuamos a ir.
Marie Colvin resumiu esta profissão em cinco palavras.
“O meu trabalho é dar testemunho.”
Não estamos lá para sermos protagonistas da história.
Estamos lá para que a história tenha testemunhas.
Porque a verdade não vive apenas nas declarações oficiais, nos comunicados ou nas imagens que circulam nas redes sociais. Vive nos lugares onde alguém decide ir vê-la com os próprios olhos.
E enquanto houver quem tente escondê-la, haverá sempre quem vá procurá-la.