Menos turismo de massas, mais saúde e inovação
Durante décadas, a Madeira apostou quase tudo no turismo. Hotéis, resorts, campos de golfe — um modelo que trouxe crescimento, emprego e visibilidade internacional. Mas também trouxe dependência. Sempre que o turismo abranda — seja por crises económicas, pandemias ou instabilidade internacional — a região sente de forma imediata os seus efeitos. A pergunta impõe-se: fará sentido continuar a apostar quase exclusivamente nesta via?
Talvez esteja na altura de olhar para outros caminhos, complementares e mais sustentáveis. Um desses caminhos passa pela área da saúde, nomeadamente pela indústria farmacêutica, dispositivos médicos e investigação clínica. Pode parecer, à primeira vista, uma ambição difícil para uma região insular como a Madeira. Mas há exemplos que mostram exatamente o contrário.
A Irlanda é um desses casos. Também ilha, também periférica na Europa, mas hoje uma das economias mais dinâmicas do mundo. Como conseguiu? Apostou de forma clara na inovação, na qualificação e na atração de empresas de grande valor acrescentado — sobretudo nas áreas farmacêutica e tecnológica. Hoje, produz e exporta medicamentos para todo o mundo, criando emprego qualificado e riqueza.
A Madeira não é a Irlanda, mas pode aprender com ela. Já possui algumas condições importantes. A Zona Franca, por exemplo, oferece vantagens fiscais que podem atrair investimento internacional. Mas, como se sabe, impostos baixos não chegam. É preciso criar um verdadeiro ecossistema.
E aqui entra uma peça fundamental: o novo hospital com vertente universitária. Este projeto pode ser muito mais do que uma infraestrutura de saúde. Pode ser o motor de uma mudança estrutural.
Um hospital universitário forma profissionais, gera conhecimento, participa em investigação e pode atrair projetos internacionais. Em bom rigor, é um ponto de encontro entre ciência, saúde e economia.
Se juntarmos a isso uma estratégia territorial inteligente, o cenário torna-se ainda mais interessante. O Caniçal, com o seu porto e espaço disponível, pode assumir-se como zona industrial e logística, capaz de acolher produção de dispositivos médicos ou atividades associadas à indústria farmacêutica. Já o Porto Santo, com a sua tranquilidade, espaço e condições naturais, poderia especializar-se em saúde e bem-estar — desde reabilitação a investigação em envelhecimento ou saúde mental.
Mais do que substituir o turismo, trata-se de o complementar e qualificar. Porque o turismo, tal como está, não chega para garantir estabilidade económica a longo prazo — nem para fixar jovens qualificados que, muitas vezes, acabam por sair da região em busca de melhores oportunidades.
Um investimento nestas áreas traria ganhos claros. Desde logo, emprego mais estável e qualificado, menos dependente da sazonalidade. Por outro lado, embora não signifique automaticamente medicamentos mais baratos, poderia melhorar o acesso e reduzir o risco de falhas no abastecimento — algo particularmente sensível numa região insular.
No fundo, trata-se de fazer uma escolha estratégica: continuar a expandir um modelo baseado em quantidade — mais turistas, mais camas, mais campos de golfe — ou começar a apostar na qualidade, no conhecimento e na inovação.
A Madeira tem condições para dar esse passo. Tem um novo hospital a caminho, uma zona franca, território para especialização e uma posição geográfica estratégica. O que falta, talvez, é uma visão integrada e de longo prazo.
Porque o futuro da região não tem de ser apenas turístico. Pode — e talvez deva — ser também científico, tecnológico e humanamente mais sustentável.
J. R.