Os vivos, os mortos, almas e o mau olhado
Um sopro ao contrário bastava para quebrar e deixar-me os olhos rasos de água
Os mortos, as almas e o mau olhado faziam parte da vida do Laranjal e conviviam com os vivos. Os vivos éramos nós, as pessoas que moravam naquelas casas acima e abaixo do caminho, rodeadas de canaviais, bananeiras, com vista para as estacas do feijão e com o rumor da água a correr do poço para a levada e depois para a terra. O problema de haver no ar almas e maus olhados era quando os espíritos se aborreciam e, nesses casos, ou se mandava rezar missas ou, se a desordem persistisse, recorria-se aos serviços de alguém com habilidades acima dos médicos e da ciência.
As pessoas a quem acontecia o azar destes encontros sofriam com portas que se fechavam sozinhas, objectos que mudavam de lugar e passavam noites em sobressalto por causa de correntes a arrastar no quintal. Estes eram os que pediam ao padre missas por intenção das almas, a ver se dormiam sossegados. Já os que eram apanhados pelos maus olhados caíam numa tristeza profunda, perdiam o apetite, a vontade de viver e deixavam a família numa grande aflição. E foi neste quadro de sintomas que a minha tia Conceição me levou à casa da dona Aldinha, tinha eu cinco anos e um vestido vermelho com uma flor à frente.
É o mesmo vestido que aparece numa fotografia ao lado do meu irmão, os dois muito sorridentes. Eu era aquela menina a quem ainda não tinham cortado os caracóis e ninguém se lembrava de alguma vez me ter faltado a fome ou a vontade de viver. Em cinco anos fora, em modo geral, feliz se me deixassem correr atrás do meu irmão, quando comia e quando dava a mão ao meu pai, aquele homem grande que me defendia de tudo, até quando fazia xixi na cama. E todos os domingos à noite, quando o quarto da televisão da casa do meu avô enchia de tias, primos e convidados, ele repetia a mesma história, que fizera mal o telhado e, por isso, chovia na minha cama todas as noites.
Não existia motivo para a tristeza que se abateu sobre mim e me impedia de comer o que quer que fosse. A minha mãe levou-me à consulta da Caixa e o médico não viu motivo e, quando os dias somaram semanas, a preocupação aumentou. A minha tia Alice organizou um piquenique ao Poço das Freiras, levou morangos e laranjada e nem assim a minha disposição se alterou. “O que tem esta pequena?”, perguntavam, incrédulas e sem saber já o que fazer para me tirar dali, daquele lugar estranho onde parecia ter ficado enredada, uma teia invisível que começou a parecer um daqueles novelos do olhado e dos fenómenos sem explicação científica.
As minhas tias decidiram que, como o caso parecia perdido, o melhor seria fazer o teste da água e do azeite, com cruz de alecrim e o Credo Deus Pai. Como o azeite se desfez na água, ficou a minha tia Conceição encarregada de me levar a dona Aldinha, que também não teve dúvidas quando iniciou a ladainha “No teu andar, no teu vestir, no teu calçar” e arrotava ao mesmo tempo, prova de que a pequena tinha “um camadão” e devia fazer fumigações de alecrim a queimar em cima de uma tampa de uma panela. As minhas tias desencantaram o alecrim, a tampa da panela e não perderam tempo a aplicar a terapia.
As quatro mulheres com quem cresci não acreditavam em olhados, bruxas, magia e aceitavam que os mortos quando partiam era para sempre, mas tinham uma menina de cinco anos triste que não conseguia fazer passar a comida pela garganta. E, nessa noite, depois de inalar o fumo, bebi um copo de leite e duas bolachas Maria. Fosse o que fosse que me impedia de comer desapareceu uns dias depois. Nunca ninguém soube que mal foi aquele, mas eu cresci com a minha mãe e as minhas tias a vigiar-me a tristeza.
E nada as deixava mais inquietas do que o meu feitio que, às vezes, diziam elas, parecia ser de cristal, um sopro ao contrário bastava para quebrar e deixar-me os olhos rasos de água.