A caminho de 1926?

Não nascemos nesse tempo, evidentemente, mas tivemos o privilégio de falar com pessoas nascidas no princípio do século passado.

E pessoas que não eram nem tolas, nem analfabetas e também não eram salazaristas, como nos quiseram fazer crer certos oportunistas em relação às pessoas do outro tempo.

E há uns aninhos atrás até falavam em fascistas, mas como a podridão política atingiu patamares iguais ou piores ao que existia nesse tempo, deixaram, certamente, por vergonha ou falta de moral, de aplicar esse termo.

Bom, contudo, aquilo que verdadeiramente nos queremos referir diz respeito aos acontecimentos vergonhosos, degradantes, miseráveis e graves, acontecidos no dia da greve nacional.

Coisas que não nos pareceram surgir por acaso, dando mais a ideia de ser algo planeado, estudado e levado à prática.

Daí trazer à nossa memória os tempos dos imbecis que destruíram os ideais de abril e ao juntarmos isso a tudo o que vem acontecendo neste triste País, concluímos que, caminhamos mais no sentido do que aconteceu em 1926 do que na consolidação desta democracia que, certa gente, não se cansa de apregoar.

É verdade que os tempos são outros, hoje não temos à beirinha do nosso País regimes ditatoriais que nos apoiassem, antes pelo contrário, temos uma Europa que nos acolheu no seu seio, fecha os olhos a tudo o que de mal vai acontecendo em Portugal e numa solidariedade impressionante vai, inclusive, ajudando que o País possa ir disfarçando o descalabro existente.

Mas é triste vermos um País que teve tudo na mão, todos os apoios indispensáveis para criar uma sociedade equilibrada, digna, justa, no mínimo admirada e respeitada, e que, em cada dia que passa, as notícias entram em nossas casas a dar conta de um País que tarda a encontrar a sua identidade, a impor os seus valores, a dar uma esperança de um futuro melhor.

São Instituições públicas, partidos, pessoas que ocupam cargos de responsabilidade pública e que deviam dar o exemplo, a estarem sob a alçada da Lei, é uma Assembleia da República cada vez com menos credibilidade aos olhos dos cidadãos, é a droga e a corrupção a crescerem como erva daninha, vidas a serem ceifadas nas estradas como se estivéssemos em guerra e todo um mar de desigualdades sociais e de acontecimentos bárbaros, violentos, macabros, de toda a espécie, verdadeiramente de bradar aos céus.

Mas nem tudo isto é fruto do acaso, mas o corolário lógico de um País com Leis, umas inapropriadas, outras que seriam eficazes, mas não são cumpridas e todo um abandalhamento em que se deixou tudo isto chegar pela incompetência e por não se querer meter na ordem os descendentes daqueles irracionais que levaram o País ao caos, consequente Golpe Militar de 1926 e posterior ditadura.

Ainda não chegamos ao extremo de termos cerca de 23 governos em seis anos, como aconteceu entre 1920 e 1926, mas temos tido um pouco de toda a selvajaria, a instabilidade política e social dessa época.

Que Deus nos ajude e que a União Europeia, mesmo fragilizada que esteja, não se desmorone, não nos abandone.

Cabeças para levar este País a bom porto, com analfabetos ou com doutores, com muito ou pouco dinheiro, com ajudas ou sem elas, com pouca ou muita liberdade está provado que nunca tivemos, nem temos.

Juvenal Pereira