Bruxelas saúda primeiro aval parlamentar ao euro digital para autonomia nos pagamentos
A Comissão Europeia saudou hoje o primeiro aval dos eurodeputados ao regulamento que irá reger o futuro euro digital, destacando o reforço da autonomia da União Europeia (UE) com esta moeda eletrónica alternativa ao Visa e Mastercard.
"Acolho com satisfação a votação de hoje da Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu sobre os relatórios relativos ao euro digital e ao curso legal do numerário", reagiu na rede social X o comissário europeu da Economia, Valdis Dombrovskis.
"Este representa um marco importante no reforço da autonomia da Europa nos pagamentos digitais, preservando ao mesmo tempo o papel do dinheiro físico nas nossas sociedades", adiantou o responsável, dizendo aguardar "com expectativa as negociações em trílogo".
Numa reunião hoje em Bruxelas, esta comissão parlamentar deu 'luz verde' à sua posição negocial sobre a criação do euro digital, por 43 votos a favor, 14 contra e uma abstenção, no âmbito do chamado pacote da moeda digital única, que é composto por três iniciativas legislativas.
"É um dia histórico para a Europa", disse a presidente da comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, Aurore Lalucq, após a votação.
Numa declaração enviada à Lusa, a eurodeputada social-democrata Lídia Pereira, que integra esta comissão parlamentar, salientou que o voto "é um passo importante para uma solução europeia de pagamentos que reforce a autonomia estratégica, reduza dependências externas e dê aos cidadãos uma opção digital segura, simples e verdadeiramente europeia".
Em comunicado entretanto divulgado, o Parlamento Europeu defende que o euro digital deve ser um meio de pagamento "seguro, privado e gratuito", disponível tanto em ambiente 'online' como 'offline', oferecendo aos cidadãos e empresas "uma forma privada, segura e inovadora de pagar", ao mesmo tempo que reduz a dependência da União Europeia de fornecedores externos.
O euro digital é visto como uma forma de reforçar a soberania financeira da UE, reduzindo a dependência de redes de pagamentos internacionais - como as norte-americanas Visa e Mastercard - através de uma alternativa pública europeia para pagamentos digitais.
Relativamente ao funcionamento, o texto prevê que o euro digital seja emitido pelo Banco Central Europeu (BCE) e funcione através de um sistema baseado em contas para pagamentos 'online', enquanto as operações 'offline' poderão ser realizadas diretamente entre dispositivos locais, sem necessidade de ligação à internet.
A proteção da privacidade surge como um dos elementos centrais da proposta, propondo os eurodeputados tecnologias avançadas que permitam validar transações sem expor dados pessoais.
O Parlamento Europeu propõe, ainda, limites à quantidade de euros digitais que cada cidadão poderá deter, de forma a evitar impactos negativos sobre o sistema bancário e a estabilidade financeira.
Os eurodeputados querem que esses limites sejam definidos pela Comissão Europeia com base em recomendações do BCE e sujeitos a revisão periódica.
As empresas, por seu lado, não poderão manter saldos permanentes em euros digitais, exceto para acumular pagamentos recebidos durante um período máximo de 24 horas.
Quanto à utilização prática, a maioria das empresas será obrigada a aceitar pagamentos em euro digital, embora estejam previstas exceções para trabalhadores independentes e microempresas que não aceitem outros meios de pagamento digitais.
Os serviços básicos associados ao euro digital, incluindo abertura de conta, gestão de fundos e disponibilização de um instrumento de pagamento, deverão ser gratuitos para os utilizadores.
Após o aval de hoje, seguem-se negociações com os países (no Conselho da União Europeia) antes da adoção definitiva da legislação.