Porto Santo refreia construção de novos hotéis e aposta no destino como "refúgio de sentidos"
O turismo é o principal motor da economia do Porto Santo, na Madeira, mas a Câmara Municipal quer refrear a construção de novas unidades hoteleiras, apostando na sustentabilidade do setor e na promoção da ilha como "refúgio de sentidos".
"O Porto Santo é uma ilha que tem limites e a pressão humana é o principal deles. Se tivéssemos mais 15 unidades hoteleiras ao longo da praia, sendo que cada unidade hoteleira necessita de cerca de 500 pessoas para trabalhar, iríamos consumir um espaço muito grande", avisa o presidente do município, o social-democrata Nuno Batista.
Em declarações à agência Lusa, o autarca sublinhou estar "completamente fora de questão" qualquer modelo que potencie o turismo de massas, salientando, no entanto, que a ilha, mesmo pequena (cerca de 43 quilómetros quadrados), "tem oportunidade para todo o tipo de turismo organizado e sustentável".
A Câmara Municipal (PSD/CDS-PP) está agora focada em promover a ilha como um "refúgio de sentidos", um lugar especial onde as pessoas queiram ir e regressar sempre.
"O turismo de massas nunca será a nossa opção", afirmou o autarca, para logo acrescentar: "O nosso território é finito e é melhor arrependermo-nos de não ter feito uma coisa [em termos de investimento em novas unidades], do que cometer um erro muito grave, que depois é irrecuperável."
Como prova desta política, Nuno Batista, que lidera a autarquia desde 2021, indicou que foram aprovados projetos camarários no valor de 16 milhões de euros, no âmbito do quadro comunitário 2030, com o investimento canalizado para a melhoria da qualidade de vida, recuperação de património e sustentabilidade ambiental, sendo "rara" a construção de novas infraestruturas.
Dados da Direção Regional de Estatística da Madeira indicam que, em 2025, o Porto Santo registou o maior número de turistas em alojamento turístico coletivo no mês de agosto -- 19.377, num total de 26 estabelecimentos --, mas não foi contabilizado o número de hóspedes nas cerca de 200 unidades de alojamento local registadas.
Naquele ano, no total das 26 unidades hoteleiras (nem todas funcionam o ano inteiro), foram registados 134.731 hóspedes, dos quais 97.083 residentes em Portugal e 37.648 residentes no estrangeiro, com destaque para Alemanha, Reino Unido e Dinamarca.
"Fizemos uma opção clara pelo turismo nacional e regional e não é por acaso que mais de 50% do turismo é nacional", disse Nuno Batista, lamentando as dificuldades ao nível da mobilidade aérea, com os voos concentrados nos meses de verão.
"É preciso que alguém me ajude a explicar à população porque é que no aeroporto aqui ao lado [na ilha da Madeira] aterram 40 aviões por dia e neste não aterra nenhum. Nós nem somos muito exigentes. Queremos apenas a oportunidade de ter um voo", disse, considerando "injustificável que, neste momento, não haja uma única ligação a Portugal continental o ano inteiro."
Nuno Batista defende tratar-se de uma questão de coesão territorial que põe em causa a mobilidade dos porto-santenses, afetando também os residentes no continente que pretendem fazer férias na ilha fora da época alta.
A população residente no Porto Santo é de cerca de 5.200 habitantes, mas nos meses de verão, sobretudo em agosto, regista picos com 30.000 pessoas, sendo a praia, que se estende ao longo de nove quilómetros, a principal atração da ilha.
As empresas do setor do turismo recorreram, por isso, a mão-de-obra imigrante, em parte através de uma escola de formação profissional instalada na ilha, frequentada por jovens cabo-verdianos e são-tomenses.
"São fundamentais e essenciais [os imigrantes]. Basta percorrer os estabelecimentos de serviços e de hotelaria do Porto Santo. Acho que não há nenhum que não tenha jovens de São Tomé ou de Cabo Verde a trabalhar", disse o presidente da Câmara Municipal, sublinhando que as duas comunidades estão muito bem integradas.
Como exemplo, apontou o facto de o Orçamento Participativo Jovem da autarquia ter premiado este ano um projeto apresentado por jovens cabo-verdianos para a criação de uma festa multicultural entre Porto Santo, São Tomé e Cabo Verde, que será programada para outubro ou novembro.
A Câmara Municipal do Porto Santo está agora empenhada em traçar um plano a longo prazo focado no turismo sustentável, visando apurar que máximos que a ilha suporta sem prejudicar a sua sustentabilidade, nomeadamente ao nível do fluxo de pessoas e de viaturas.
"Para tomar decisões é preciso ter números e ver os factos. Presumir é muitas vezes o primeiro passo para falhar", observou Nuno Batista.