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Fact Check Madeira

É normal o surto de infecções respiratórias nos Marmeleiros ser de gripe A?

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Na última quarta-feira, o DIÁRIO, na plataforma online dnoticias.pt, noticiou a existência de um surto de gripe A no Hospital dos Marmeleiros. Durante o dia seguinte, o caso ganhou dimensão e foi também divulgado por órgãos de comunicação social nacionais.

As notícias suscitaram dezenas de comentários nas redes sociais de vários meios de comunicação. Muitos deles apontavam no mesmo sentido: não existiria nada de extraordinário na situação, uma vez que a gripe sempre existiu e a gripe A é hoje uma realidade comum. Outras linhas de comentário centraram-se nas condições do Hospital dos Marmeleiros ou limitaram-se a desejar rápidas melhoras aos doentes afectados.

Corresponderá à verdade a afirmação de que a gripe A é normal nos dias de hoje?

A verificação dos factos será feita com recurso aos relatórios semanais da monitorização da resposta sazonal em saúde da Região Autónoma da Madeira – Inverno 2025/2026, elaborados pela Unidade de Saúde Pública do SESARAM. Em particular, serão analisados os dados de vigilância laboratorial que permitem identificar quais os vírus respiratórios em circulação na Região ao longo da época de Inverno.

Importa, antes de mais, distinguir duas realidades diferentes que tendem a ser confundidas no debate público: um surto numa unidade hospitalar e um surto na comunidade.

Um surto hospitalar ocorre quando um agente infeccioso se propaga entre utentes ou profissionais num espaço fechado, onde existe uma concentração de pessoas vulneráveis, muitas delas com idade avançada ou patologias pré-existentes. Já um surto comunitário implica uma circulação alargada na população em geral, afectando diferentes grupos etários e contextos sociais.

Assim, a existência de um surto de gripe A num hospital não significa, por si só, que exista uma situação epidemiológica anormal na comunidade. Pode resultar da introdução do vírus num ambiente particularmente susceptível à sua transmissão. Pelo contrário, um vírus que circula normalmente na população pode provocar surtos localizados em lares, hospitais ou unidades de cuidados continuados sem que isso represente uma situação excepcional à escala regional.

Feita esta distinção, importa analisar qual foi o comportamento da gripe A na Madeira durante a época respiratória 2025/2026.

Os dados laboratoriais mostram que a gripe A foi claramente o principal vírus respiratório da época. Na semana 52/2025 (22/12/2025 a 28/12/2025) foram identificadas 77 amostras positivas para Influenza A, contra apenas 8 para Influenza B e 8 para Vírus Sincicial Respiratório (VSR).

Na semana 01/2026 (29/12/2025 a 04/01/2026) foram detectadas 96 amostras positivas para Influenza A, enquanto o VSR registou 11 casos e a COVID-19 apenas 2.

O pico da actividade gripal ocorreu durante Janeiro. Na semana 03/2026 (12/01/2026 a 18/01/2026) foram identificadas 99 amostras positivas para Influenza A, contra 28 para VSR e apenas 4 para Influenza B.

Na semana 04/2026 (19/01/2026 a 25/01/2026), a situação manteve-se semelhante, com 100 detecções de Influenza A e 33 de VSR.

Mesmo quando a actividade viral começou a diminuir, a gripe A continuou a apresentar valores significativos. Na semana 05/2026 (26/01/2026 a 01/02/2026) foram identificados 71 casos de Influenza A e 38 de VSR. Na semana 06/2026 (02/02/2026 a 08/02/2026) foram registados 48 casos de Influenza A e 29 de VSR.

Só a partir de Fevereiro se observa uma aproximação entre os dois vírus. Na semana 07/2026 (09/02/2026 a 15/02/2026), o VSR registou 30 infecções, ultrapassando ligeiramente as 26 identificadas para Influenza A.

Na semana 08/2026 (16/02/2026 a 22/02/2026), ambos apresentavam valores muito próximos, com 30 casos de Influenza A e 29 de VSR.

Durante Março, a circulação da gripe A reduziu-se progressivamente. Na semana 10/2026 (02/03/2026 a 08/03/2026) foram identificados 18 casos de Influenza A; na semana 11/2026 (09/03/2026 a 15/03/2026), 13 casos; na semana 12/2026 (16/03/2026 a 22/03/2026), 6 casos; e na semana 13/2026 (23/03/2026 a 29/03/2026), apenas 4 casos.

Mesmo após o final do pico sazonal, a gripe A continuou presente. Na semana 15/2026 (06/04/2026 a 12/04/2026) foi identificado 1 caso de Influenza A, juntamente com 1 caso de Influenza B e 1 de SARS-CoV-2.

Na semana 19/2026 (04/05/2026 a 10/05/2026) ainda foram identificados 5 casos de Influenza A. Na semana 20/2026 (11/05/2026 a 17/05/2026) foram registados mais 3 casos.

Outro aspecto relevante é que a gripe A não foi apenas um dos vírus em circulação. Foi, de forma consistente, o vírus respiratório dominante durante grande parte do Inverno. Em contraste, a gripe B teve uma expressão muito reduzida e a COVID-19 assumiu um papel secundário na vigilância laboratorial da época.

Os próprios relatórios da resposta sazonal em saúde foram elaborados precisamente porque as autoridades de saúde esperavam um aumento da circulação de vírus respiratórios durante os meses de Inverno. A gripe A integrou esse padrão sazonal e constituiu, de acordo com os dados disponíveis, o principal agente gripal da época.

Isto não significa que todos os surtos devam ser encarados com ligeireza. Num hospital ou numa unidade de cuidados continuados, mesmo um vírus comum pode ter consequências importantes devido à fragilidade dos doentes internados. Contudo, a identificação da gripe A como agente responsável por um surto não constitui, por si só, uma situação inesperada ou excepcional.

Como fica demonstrado, a gripe A foi o vírus respiratório predominante na Madeira ao longo da época de Inverno 2025/2026, atingindo valores muito superiores aos da gripe B e da COVID-19 durante várias semanas consecutivas. A sua presença enquadra-se no padrão sazonal observado pelas autoridades de saúde.

Pelo exposto, avaliamos como verdadeira a afirmação de que a gripe A constitui actualmente uma realidade normal e frequente durante a época de Inverno, embora isso não elimine a necessidade de vigilância e controlo quando surgem surtos em ambientes hospitalares ou noutras populações vulneráveis.

“A gripe A é normal hoje em dia” – síntese de comentários nas redes sociais de vários órgãos de comunicação