A vulnerabilidade não pode ser adiada
No passado dia 6 de junho, em Madrid, o Papa Leão XIV visitou o Centro Social CEDIA 24 Horas, uma instituição dedicada ao apoio de pessoas em situação de vulnerabilidade. A presença neste espaço integrou a agenda oficial.
O gesto não foi apenas simbólico. Foi um sinal de atenção a uma realidade que atravessa muitas sociedades e que continua a exigir respostas consistentes.
Entre os vários rostos da vulnerabilidade social, há um que exige atenção particular: o das crianças.
A infância deveria ser um tempo de proteção, crescimento e descoberta. No entanto, para muitas crianças, continua a ser marcada pela pobreza, pela exclusão social, pela instabilidade familiar, pela violência ou pela falta de oportunidades. São realidades que nem sempre são visíveis no espaço público, mas que têm impacto direto no percurso de vida e no futuro das sociedades.
Foi neste contexto que aceitei o convite para integrar o processo de construção do I Fórum sobre a Infância Vulnerável, uma iniciativa internacional que reúne entidades e especialistas da Madeira, dos Açores, das Canárias e de Cabo Verde, com o objetivo de elaborar o Livro Branco da Infância Vulnerável da Macaronésia. Este trabalho pretende sistematizar conhecimento e contribuir para a definição de estratégias de proteção, inclusão e bem-estar.
No passado mês de maio participei, em Las Palmas, na apresentação oficial deste projeto. Nesse encontro foram identificados os aspetos mais críticos e os pontos mais sensíveis de cada arquipélago, permitindo uma leitura mais precisa das diferentes realidades. Mais do que um encontro institucional, foi um momento de trabalho conjunto e de partilha, onde ficou claro que os desafios são semelhantes e exigem respostas coordenadas.
Num espaço como a Macaronésia, faz cada vez mais sentido reforçar a cooperação entre arquipélagos, também nesta temática emergente. A partilha de conhecimento e de práticas permite melhorar a capacidade de resposta e tornar as políticas mais eficazes. Nenhum território responde sozinho a estes desafios, e é na articulação entre realidades diferentes que se encontram soluções mais consistentes.
É este o espírito que orienta os trabalhos deste Fórum, cuja próxima reunião terá lugar no Funchal, entre os dias 6 e 8 de julho. A Madeira receberá assim representantes dos diferentes territórios envolvidos, reforçando o seu papel neste processo de trabalho conjunto.
No âmbito desta preocupação com a infância vulnerável, e desta feita, na qualidade de Cônsul Honorária de Cabo Verde, desenvolvi uma ação concreta no passado Dia Mundial da Criança, a exemplo dos últimos anos. Nesse contexto, os brinquedos foram substituídos por instrumentos e equipamentos musicais, oferecidos ao Complexo Educativo Manoel António Martins – CEMAM, em Santa Maria, na Ilha do Sal e ainda com uma partilha de metodologias, fruto de uma oferta do Conservatório Escola das Artes que também se juntou à causa, oferecendo vários manuais didáticos. Esta iniciativa procurou contribuir para a valorização das crianças através do acesso à música e à expressão criativa. A ação foi possível graças ao apoio de um dos grandes parceiros do projeto Juntos por Sorrisos, o Grupo Sousa, que tem sempre apoiado as nossas iniciativas de cariz social.
Num contexto de desenvolvimento e de progresso, importa lembrar que nenhuma sociedade é verdadeiramente desenvolvida se não for capaz de proteger as suas crianças. A forma como se responde à infância vulnerável diz muito sobre a maturidade de uma sociedade.
Porque quando falamos de crianças, falamos de responsabilidade presente e não apenas de futuro. A proteção das crianças não deverá ser apenas uma intenção mas sim uma responsabilidade concreta, que deve traduzir-se em ação contínua.
A identificação de problemas só ganha verdadeiro valor quando acompanhada da construção de respostas.