Portugal é dos que mais confia nos media mas aumenta o evitar notícias
Portugal está entre os países onde mais se confia no jornalismo, mas tem uma tendência "bastante preocupante" que é o evitar notícias, sobretudo entre jovens e mulheres, salienta à Lusa a investigadora da OberCom Ana Pinto Martinho.
Estas são algumas das conclusões do Digital News Report Portugal 2026 (DNRPT26) hoje divulgado, o 12.º relatório anual produzido pelo OberCom -- Observatório da Comunicação em parceria com Reuters Institute for the Study of Journalism da Universidade de Oxford.
"Portugal está de facto entre os países onde mais se confia no jornalismo, mas tem aqui uma tendência bastante preocupante, que é a questão do afastamento das notícias", refere a investigadora, além de uma preocupação com a desinformação que atingiu o valor mais elevado dos últimos anos.
Em 2026, 51% dos portugueses afirmam confiar nas notícias em geral, valor significativamente superior à média global de 37%. Em 2015 eram 66% os portugueses que confiavam nas notícias.
Portanto, "Portugal continua a ser um dos países onde a confiança em notícias é mais elevada, é muito interessante porque nós estamos ao nível dos países nórdicos na Europa em termos de confiança, mas de facto é uma tendência geral de descida na confiança nas notícias", refere.
"Aquilo que sabemos é que nestes anos todos em que temos Digital News Report, portanto 11 anos, desde 2015", o que aconteceu foi que a confiança "desceu 15 pontos percentuais", ilustrou.
Segundo o estudo, "a confiança também se distribui de forma desigual na sociedade portuguesa", uma vez que "os níveis mais elevados encontram-se entre os cidadãos mais velhos, mais escolarizados e com rendimentos mais elevados, enquanto os jovens apresentam valores substancialmente inferiores".
Quanto ao evitar ativamente as notícias, que a investigadora classifica de "preocupante", isto acontece "sobretudo dentro dos mais jovens e das mulheres".
"Ela é mais elevada entre as mulheres", acrescenta, apontando que "este desinteresse parece não ser tanto devido à falta de interesse pela atualidade, mas sim pela fadiga informativa, a saturação e o desgaste", ou seja, pela quantidade de informação com que as pessoas contactam diariamente.
Entre 2015 e 2018, cerca de sete em cada dez portugueses declaravam interesse pelas notícias. Em 2026, esse valor mantém-se nos 50% e, em paralelo, aumentou o número de pessoas que evitam notícias de forma ativa.
Atualmente, 37% dos portugueses afirmam evitar notícias frequentemente ou algumas vezes, valor que compara com apenas 22% em 2017.
A investigadora destaca ainda o facto de, em Portugal, "as pessoas estarem preocupadas com a desinformação", sendo que "esta preocupação atinge um dos níveis mais elevados".
"Acredito que até é algo positivo", porque "quer dizer que elas têm sentido crítico e possivelmente tentam perceber o que é desinformação e o que não é desinformação", prossegue Ana Pinto Martinho.
A investigadora do OberCom recorda que Portugal continua a ser "um dos países onde menos se paga por notícias", nos 8%, o que também tem impacto na sustentabilidade do setor e na própria qualidade do jornalismo.
Entretanto, "a televisão também continua a ter um peso muito grande como principal fonte de notícias em Portugal, é um dos países, aliás, onde isso mais acontece. Só para termos uma ideia assim muito breve, 71% dos portugueses utilizavam a televisão para aceder às notícias na semana anterior a terem respondido", sublinha.
"As redes sociais dentro do 'online' representam agora o principal ponto de entrada para as notícias, ultrapassando já os motores de pesquisa, os motores de busca e também o acesso direto através dos 'sites', dos meios de comunicação social", aponta.
Quanto aos 'chatbots' de inteligência artificial (IA), estes já estão "a entrar nesta parte noticiosa", mas sem papel significativo.
"Outros dados interessantes prendem-se também com a questão dos criadores digitais" que estão "a ganhar maior relevância junto dos mais jovens", mas não se fala ainda "numa substituição daquilo que é o jornalismo, mas sim, diria, uma reorganização de todo o ecossistema informativo, mas particularmente junto aos públicos mais jovens", refere.
"Se calhar será importante" para os media "começarem a olhar um pouco mais para estes públicos mais jovens que estão a ser cada vez mais atraídos para estes criadores digitais", sugere Ana Pinto Martinho.
O estudo, que integra dados de 48 mercados e mais de 97.000 inquiridos em todo o mundo, traça um retrato detalhado dos hábitos de consumo de notícias dos portugueses utilizadores de Internet, com amostra nacional representativa de 2.024 respondentes.
Os dados foram recolhidos entre 06 de janeiro e 20 de fevereiro de 2026.