Gel no cabelo e dinheiro para o cinema
O Laranjal não era o lugar onde as mulheres mais seguiam a moda e menos ainda entre as minhas tias e a minha mãe, senhoras de meia idade, educadas de forma austera e de acordo com o que dizia o padre. A avó Alexandrina, de quem tenho apenas uma memória vaga, não aprovava roupas em que se visse os joelhos, os cotovelos ou decotes com mais de cinco dedos a contar do pescoço. Quando morreu, em 1973 e em plena época das mini-saias, até a minha mãe usava saias acima dos joelhos e as minhas tias iam fazer uma permanente ao cabeleireiro de três em três meses.
A vida estava a mudar para as mulheres no direito a pintar as unhas e usar calças compridas, não havia como fugir disso mesmo cá por cima e em casa da avó Alexandrina, sempre tão severa e disposta a cumprir o que ouvia na missa. E as minhas tias - as três com quem cresci - não falhavam a permanente. Fosse no cabeleireiro ou, em tempos de maior aperto e para ser mais barato, em casa das cabeleireiras, num salão improvisado, com espelho e revistas antigas para passar o tempo.
Quando entrei na adolescência e quis me libertar do cabelo comprido com bandolete foi num desses salões da vizinhança que fiz o meu primeiro corte escadeado, tal e qual como tinha visto numa revista que a minha tia Conceição trouxe do hotel Girassol. O dia em que cheguei à escola com o cabelo diferente foi o primeiro em que deram por mim, a gordinha desajeitada, que chegava de autocarro e fazia o caminho dos Ilhéus à Avenida do Mar para ter lugar no horário da uma e meia.
Nessa tarde cheguei a casa feliz e essa alegria durou muito mais do que aquele instante junto ao campo de futebol numa manhã sem história para as miúdas encostadas ao muro e para os rapazes a jogar à bola. E sem relevância para as pessoas na paragem ou para a minha mãe que, nesse dia como nos outros todos, passou a tarde a bordar. E mesmo assim esse dia dos meus 13 anos foi dos melhores daquela adolescência onde quase tudo jogava contra a Lina Marta, filha do mestre Gabriel e da dona Celina, senhores de meia idade e sem qualquer interesse em modas.
A minha mãe era doméstica e o meu pai pedreiro e era isso que eu escrevia na ficha da escola, o que me colocava no fim da escala social, num vazio do qual ninguém esperava feitos ou sucessos académicos. A única aposta era a deles, aquelas duas pessoas demasiado empenhadas em construir uma casa para perder dinheiro em roupas, num gira-discos, em óculos de sol ou jantares fora. Também não percebiam o motivo de pagar mais por um par de sapatos ou uma t-shirt quando havia mais barato e melhor.
Os dois vinham de um tempo em que o mais importante era sobreviver, poupar e atravessar esta vida sem excessos, onde até a vaidade das mulheres era vigiada pelas mães, pelos padres e depois pelos maridos. A minha mãe arranjava o cabelo antes de sair de casa, tinha dois fatos de saia e casaco, duas blusas de laço e uns sapatos de salto para ir ao médico. A única extravagância era o Tokalon, para disfarçar idade e só dias em que se sentia pior e mais cansada, mas o mundo estava a mudar e mais depressa do que na década anterior, quando até ela subiu a bainha da saia e enfrentou a avó Alexandrina.
Eu já não era dessa geração de sacrificados: queria roupas da moda, gel no cabelo, dinheiro para o cinema, para livros e um gira-discos para ouvir música. E lutei por isso nos anos seguintes, só falhei o gira-discos. A minha mãe disse que não valia pagar o que se podia ter de graça, todos os dias, na rádio.