Quem protege a nossa sociedade da publicidade agressiva dos jogos online? Ou só vale para o tabaco e as drogas?
Esta semana, sentado no sofá de casa dos meus pais, deixei-me ficar um pouco até mais tarde, para usufruir dessa companhia boa que nem sempre é possível mas de que gosto tanto. A televisão ligada era apenas um motivo para estarmos ali, aproveitar os momentos juntos, deixarmo-nos ficar mais um pouco. Confesso que é raro ver alguma coisa na televisão depois de jantar sem ser uma série ou um filme. Mas nesse dia tanto me fazia. Mesmo sem estar a prestar grande atenção, acabamos por nunca nos deixarmos abstrair na totalidade. E confesso que me deixou preocupado a quantidade de publicidade a jogos e plataformas de casino. Umas atrás das outras, marcas diferentes, razões distintas para experimentar mas que no fundo vão dar ao mesmo. E isso deixou-me a pensar, sobretudo porque o meu pai comentou exatamente o mesmo comigo. Como é que permitimos enquanto sociedade, que o dinheiro fale mais alto ao ponto de criar tantos novos viciados. Nós que proibimos o tabaco em todo o lado e que diabolizamos as drogas. Que sociedade é esta que assiste impávida e serena a uma manipulação social que silenciosamente vai desenvolvendo um problema gravíssimo no nosso país. O crescimento absurdo de comportamentos aditivos estimulados pela nossa inoperância. E não me falem de falta de informação ao fim de tantos anos. Vamos fechando os olhos porque somos comprados a troco de muitos milhões de euros.
Não sei se já se deram conta mas a publicidade ao jogo online entrou-nos em casa sem pedir licença. Primeiro apareceu nos intervalos dos jogos de futebol. Depois nas camisolas dos clubes. A seguir nos vídeos das redes sociais, nos podcasts, nos placards das estradas, nas paragens de autocarro, nos telemóveis dos adolescentes e até nas conversas de café. Hoje, em Portugal, é praticamente impossível passar um dia sem ser confrontado com um convite para apostar. E o mais impressionante é a normalidade com que tudo isto acontece. Durante décadas aprendemos a criticar e a forçar a diminuição dos vícios. Lançámos uma guerra ao tabaco. Limitámos a publicidade ao álcool. Criámos campanhas para combater a toxicodependência. Mas, perante uma atividade que destrói famílias, gera dependência psicológica e provoca problemas financeiros devastadores, o país parece ter decidido assobiar para o lado. E não tenham dúvidas que não há vício que mais ponha em causa a estabilidade financeira das famílias do que este.
Os números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. O mercado português do jogo online continua a crescer de forma consistente, com receitas trimestrais superiores a 280 milhões de euros e um número de contas registadas que já se aproxima dos cinco milhões. Ao mesmo tempo, os pedidos de autoexclusão aumentam ano após ano, um sinal claro de que cada vez mais pessoas reconhecem não conseguir controlar a relação com o jogo. Mas basta olhar para a realidade para perceber que os números são apenas uma parte da história. Há jovens que começaram por apostar um euro num resultado de futebol e acabaram a perder as poupanças de vários anos. Há trabalhadores que procuram numa aposta aquilo que o salário não consegue oferecer. Há pais que escondem perdas financeiras da família. Há reformados que procuram na ilusão de um prémio a esperança que já não encontram noutras partes da vida. E, no entanto, continuamos a assistir a anúncios coloridos, alegres e sedutores que apresentam o jogo como uma forma de entretenimento inofensiva.
A mensagem é sempre a mesma. Um clique. Uma aposta. Uma emoção. Uma possibilidade de ganhar. Raramente se mostra a outra face. A ansiedade. As dívidas. As mentiras. As relações destruídas. A vergonha silenciosa de quem percebe que perdeu o controlo. Nas redes sociais portuguesas multiplicam-se testemunhos de jovens que admitem ter desenvolvido dependência antes dos 25 anos, alguns deles após perderem milhares de euros. Ao mesmo tempo, cresce a indignação de muitos cidadãos perante a omnipresença da publicidade ao jogo e das apostas. Eu por exemplo recebo todos os dias, várias vezes no Instagram incentivos a jogos de galinhas e outros animais onde nos é apresentada uma solução para a nossa precariedade financeira. De forma fácil e mentirosa. O Estado encontra-se numa posição confortável. As receitas fiscais entram. Os operadores multiplicam campanhas. O mercado cresce. Todos parecem satisfeitos.
Todos, menos aqueles que ficam para trás. Porque existe uma pergunta que ninguém parece querer responder, se sabemos que o jogo pode criar dependência, porque permitimos que a sua promoção seja tão agressiva? Porque aceitamos que um adolescente veja dezenas de anúncios de apostas numa semana? Porque normalizamos que figuras públicas, influenciadores e até instituições desportivas funcionem como veículos de promoção permanente desta indústria? Eu digo-vos. Porque o dinheiro fala mais alto. Talvez porque os impostos arrecadados ajudam a suavizar consciências. Ou talvez porque as vítimas do jogo raramente fazem manchetes. Sofrem em silêncio. Endividam-se em silêncio. Perdem em silêncio.
A verdade é que o vício do jogo não tem o rosto dramático de outras dependências. Não deixa marcas visíveis. Não provoca sirenes nem operações policiais. Instala-se devagar, atrás de um ecrã, alimentado pela promessa eterna de que a próxima aposta será diferente da anterior. E enquanto isso acontece, continuamos a assistir ao desfile interminável de anúncios que vendem sonhos instantâneos a quem, muitas vezes, já vive desesperado à procura de uma saída.
Um país mede-se também pela forma como protege os seus mais vulneráveis. Alguém que acorde para este problema trágico e ponha o dedo na ferida.