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IA agrava 'sobreinformação' e dificulta distinção entre verdade e mentira

Foto Shutterstock
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O coordenador em Portugal do projeto europeu FAMA defendeu que a crescente capacidade da Inteligência Artificial (IA) para criar conteúdos falsos "cada vez mais sofisticados" agrava um contexto de "sobreinformação", dificultando a distinção entre informação e conteúdos manipulados.

"Combater a desinformação exige mais do que verificar factos. Exige formar cidadãos críticos, conscientes e capazes de compreender os mecanismos invisíveis que moldam a informação que consomem", afirmou Tiago Lapa, coordenador nacional do projeto.

Em declarações à Lusa, no âmbito do arranque da iniciativa europeia FAMA - "Empoderando Cidadãos Informados | Empoderando Democracias Europeias" -, o investigador do CIES-Iscte considerou que a IA e os algoritmos vieram "aumentar a velocidade, a sofisticação e a escala da desinformação".

"Hoje é possível criar conteúdos falsos muito convincentes em texto, imagem, áudio ou vídeo, e disseminá-los de forma extremamente rápida através das plataformas digitais", salientou.

Ainda assim, defendeu que "o trabalho de combate e resistência a esta realidade deve ter como foco as pessoas e não meramente a tecnologia".

Segundo Tiago Lapa, o objetivo do projeto passa por promover programas de formação em literacia mediática e digital que ajudem os cidadãos a compreender "como funcionam os algoritmos, as plataformas, os mecanismos cognitivos e emocionais da desinformação e as novas ferramentas de IA".

"Acreditamos que quando as pessoas compreendem melhor o ecossistema digital onde circula e é produzida a informação, tornam-se mais críticas, mais autónomas e mais resistentes à manipulação", acrescentou.

O investigador alertou também para o atual contexto de "sobreinformação" ou "excesso" de conteúdos, que dificulta a distinção entre informação credível e conteúdos manipulados.

"O principal problema já não é apenas a existência de 'informação falsa', mas sobretudo a enorme abundância e velocidade de circulação de conteúdos no ambiente digital", afirmou.

Na sua perspetiva, a IA veio "agravar este cenário", permitindo produzir conteúdos falsos "cada vez mais sofisticados, personalizados e difíceis de distinguir da realidade".

Para Tiago Lapa, o maior risco da desinformação não é apenas enganar cidadãos sobre temas específicos, mas provocar "uma erosão generalizada da confiança nos especialistas, nos órgãos de comunicação social, nas instituições centrais ao funcionamento da sociedade, na ciência e até na própria ideia de verdade partilhada".

"Quando os cidadãos passam a viver num ambiente comunicacional marcado pela dúvida permanente, pela polarização e pela sensação de que 'já não se pode acreditar em nada', cria-se um terreno muito vulnerável à manipulação, ao extremismo, à radicalização e ao enfraquecimento do debate democrático", explicou.

O responsável considerou ainda que as plataformas digitais privilegiam frequentemente conteúdos "mais emocionais, polarizadores ou sensacionalistas", por gerarem "mais atenção, mais interação e mais tempo de permanência 'online'".

Questionado sobre a resposta europeia, Tiago Lapa afirmou que a União Europeia (UE) "tem procurado assumir uma posição relativamente pioneira na regulação do espaço digital", destacando instrumentos como o Digital Services Act (DSA, em inglês) e o Digital Markets Act (DMA, em inglês).

Ainda assim, ressalvou que "a velocidade da transformação tecnológica é muito superior à velocidade da regulação" e sublinhou que "a regulação, por si só, também não resolve na totalidade o problema".

O projeto FAMA arranca hoje em Portugal com o seminário "Desinformação na Nova Era Digital", no Iscte - Instituto Universitário de Lisboa.

Financiada pela UE, a iniciativa reúne parceiros de Portugal, Itália e Grécia e prevê a realização de 'workshops', 'webinars', debates públicos e uma conferência final nos três países participantes.