DNOTICIAS.PT
A Guerra Mundo

Rússia critica glorificação oficial de "criminosos nazis" por Kiev

Cerimónia assinala reenterro dos restos mortais do líder militar ucraniano do século XX Andrii Melnyk. 
Cerimónia assinala reenterro dos restos mortais do líder militar ucraniano do século XX Andrii Melnyk. , DR/ X Volodymyr Zelenskyy

A Rússia criticou hoje a política ucraniana de repatriamento dos restos mortais de figuras históricas, na sequência da cerimónia de trasladação do líder nacionalista Andriy Melnyk, realizada na segunda-feira em Kiev.

"Não sei se agrada nas capitais europeias, mas a nós não nos agrada de todo", afirmou o porta-voz do Kremlin (presidência), Dmitri Peskov, citado pela agência de notícias russa Interfax.

Andriy Melnyk (1890-1964) liderou uma organização nacionalista que lutou contra o domínio soviético, mas também foi acusado de colaborar com os nazis alemães, apesar de ter sido enviado para um campo de concentração.

Peskov disse que parece existir no centro da Europa "uma glorificação oficial, a nível estatal, de criminosos e colaboradores nazis".

"Parece-nos sumamente negativo", afirmou o porta-voz do Presidente russo, Vladimir Putin, citado também pela agência de notícias espanhola Europa Press (EP).

Peskov disse que este tipo de homenagens por parte das autoridades ucranianas reafirma "uma vez mais a validade e a exatidão" da decisão da Rússia de lançar a chamada "operação militar especial", em fevereiro de 2022.

Ao invadir a Ucrânia, Putin assinalou entre os objetivos a "desnazificação" do país vizinho, uma medida interpretada com o desejo de trocar as autoridades de Kiev por outras favoráveis a Moscovo.

Putin invocou também as memórias históricas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da proteção das minorias russas no leste e sul da Ucrânia.

O líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, presidiu na segunda-feira à cerimónia de trasladação de Melnyk, uma semana após os restos mortais e os da mulher, Sofia, terem sido repatriados do Luxemburgo.

Melnyk foi eleito líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN) em 1938 e, após a cisão na liderança durante a Segunda Guerra Mundial, continuou à frente de um dos grupos dissidentes da organização, banida na Rússia.

Numa dos períodos mais controversos do seu percurso, Melnyk colaborou com os nazis em certas fases da guerra, mas acabou por ficar em prisão domiciliária por ordem dos próprios alemães, que se opunham à criação de um Estado ucraniano.

Em 1944, foi enviado para o campo de concentração de Sachsenhausen.

Os defensores do legado do líder nacionalista explicam a colaboração com a Alemanha nazi como uma necessidade puramente tática para alcançar as aspirações de independência da Ucrânia.

Os detratores contrapõem com um suposto alinhamento ideológico com o nacional-socialismo e responsabilizam-no por alguns dos massacres de judeus e polacos perpetrados por nacionalistas ucranianos durante a guerra.

Melnyk integrou as fileiras dos nacionalistas ucranianos que combateram os comunistas e os czaristas russos entre 1917 e 1921, e ocupou o cargo de chefe do Estado-Maior durante a República Popular da Ucrânia.

Também lutou contra o domínio polaco na Ucrânia ocidental, onde são atribuídos a nacionalistas ucranianos massacres que permanecem como uma ferida nas relações entre os dois países.

A trasladação dos restos mortais de Melnyk insere-se nas políticas de repatriamento que o Governo de Zelensky planeia executar, as quais incluem outras figuras controversas do nacionalismo ucraniano, como Yevhen Konovalets.