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Escola Agrícola da Madeira tem cursos de jardinagem?

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A Madeira promove-se ao mundo como “ilha jardim”. Faz da Festa da Flor um dos seus maiores símbolos turísticos. Multiplica jardins botânicos, quintas históricas, espaços públicos ornamentados e campanhas onde as flores quase funcionam como marca distintiva da Região. Mas há uma pergunta que, feita devagar, talvez deixe algum desconforto no ar, ou seja, como é que a Escola Agrícola da Madeira nunca teve verdadeiramente uma formação estruturada em jardinagem? A questão ganha ainda maior peso porque surge precisamente depois de uma proposta pública lançada pela bióloga Susana Fontinha, antiga directora da própria Escola Agrícola da Madeira.

Foi no podcast ‘Alerta Verde’, conduzido por Leonel Freitas na TSF-Madeira, que Susana Fontinha defendeu a criação de uma escola de jardinagem na Madeira, inspirada em modelos existentes em países como Inglaterra. Uma estrutura capaz de formar profissionais especializados em jardins resilientes, preparados para escolher espécies adequadas às condições do solo e do clima de cada local, reduzindo consumos de água, manutenção e promovendo biodiversidade.

“Eu acho que a Madeira beneficiaria muito com uma escola de jardinagem”, afirmou a bióloga, acrescentando que apoiaria totalmente um projecto desse género e que teria inclusive gosto em leccionar numa eventual escola dedicada à área.

A proposta parece lógica. Até consensual. Afinal, poucas regiões exploram tanto a estética dos jardins e da paisagem como activo turístico e económico. O problema é que a ideia não parte de alguém que desconhecia a realidade institucional da formação agrícola regional. Parte precisamente de quem esteve durante cerca de dois anos na direcção da Escola Agrícola e teve contacto directo com as necessidades, limitações e potencialidades da instituição.

E é aqui que a dúvida inevitavelmente aparece.

Se esta necessidade era assim tão evidente, porque nunca avançou antes? Questiona-se nos corredores da unidade formação.

Até ao momento, não existe registo público de qualquer curso técnico estruturado em jardinagem, horticultura ornamental ou arquitectura paisagística aplicada criado durante o período em que Susana Fontinha exerceu funções directivas na Escola Agrícola da Madeira.

O mais próximo que existiu de uma abordagem nesta área surgiu apenas em Julho de 2024, através de uma formação intitulada “Potencialidades da flora da Madeira”. A iniciativa incidia sobretudo sobre a valorização de espécies regionais e os seus diferentes usos.

Segundo o descritivo da formação, os participantes visitaram o Jardim Botânico da Madeira Eng.º Rui Vieira, onde tiveram contacto com espécies da flora regional com potencial alimentar, medicinal, aromático, tintureiro e forrageiro. A componente teórica decorreu no auditório do edifício do Governo Regional, no Campo da Barca.

Ainda assim, tratou-se de uma formação pontual. Não de um curso técnico especializado em jardinagem, criação de jardins resilientes ou manutenção profissional de espaços verdes. E talvez seja precisamente isso que a proposta agora lançada acaba por expor: uma lacuna antiga da própria formação agrícola regional.

Porque apesar de a Madeira viver da imagem de “ilha jardim”, nunca existiu verdadeiramente uma aposta consolidada na formação técnica de jardineiros, floricultores ou especialistas em jardins adaptados às condições específicas do arquipélago.

No podcast, Susana Fontinha procurou também explicar o conceito de jardins resilientes. Segundo a bióloga, são jardins compostos por espécies locais ou adaptadas às condições edafoclimáticas do território, exigindo menos água, menos manutenção humana e promovendo simultaneamente biodiversidade.

A explicação acompanha tendências modernas da arquitectura paisagística e da adaptação climática. E talvez por isso a proposta faça hoje ainda mais sentido.

Mas permanece inevitável a sensação de oportunidade perdida. Sobretudo porque a Escola Agrícola da Madeira poderia ter sido, há muito tempo, o espaço natural para desenvolver precisamente esse tipo de formação. Isso não invalida o mérito do debate agora lançado. Pelo contrário. Talvez o facto de a proposta surgir precisamente de quem conhece a realidade da escola por dentro seja também uma admissão implícita de que existe uma falha que continua por preencher.

Numa ilha onde a paisagem é património, turismo e economia, dificilmente fará sentido continuar sem uma resposta formativa especializada nesta área. E se Susana Fontinha estiver disponível para ajudar a construir esse caminho, os seus conhecimentos sobre flora madeirense poderão efectivamente representar um contributo relevante para um projecto que, mesmo chegando tarde, continua a fazer sentido para a Madeira.

Escola Agrícola da Madeira não tem cursos de jardinagem?