O que é o norovírus?
OMS estima cerca de 685 milhões de casos de norovírus por ano
A suspeita de um surto de norovírus colocou, esta semana, 1.700 pessoas em confinamento a bordo de um navio de cruzeiro, atracado em Bordéus, após ser confirmada a morte de um homem de 90 anos. Neste ‘Explicador’ damos conta de que vírus é este, como se propaga, previne e se existe tratamento.
Sandra S. Gonçalves , 13 Maio 2026 - 12:29
Esta quinta-feira, o Hospital Universitário de Bordéus confirmou tratar-se de um surto de norovírus o que assolou o navio de cruzeiro ‘The Ambition’, após analisar em laboratório amostras biológicas. O navio estava a meio de um cruzeiro de 14 noites, quando foram detectados os primeiros casos.
Agência Lusa , 14 Maio 2026 - 12:57
Ainda no início deste mês de Maio, mais de 100 pessoas adoeceram com um norovírus a bordo de outro navio, o ‘Caribbean Princess’, que se encontrava a navegar perto das Bahamas. Os centros de controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos da América, que monitorizam surtos em viagens com escala em portos norte-americanos e estrangeiros, registaram 23 surtos gastrointestinais em navios de cruzeiro no ano passado, a maioria causada pelo norovírus, incluindo uma nova estirpe.
Agência Lusa , 09 Maio 2026 - 20:52
Mas, embora os especialistas alertem que um navio é o terreno ideal para a propagação de vírus, devido à grande proximidade entre as pessoas e partilha de espaços e equipamentos a bordo, a realidade é o norovírus, em particular, pode ser contraído em diversas situações.
Agência Lusa , 13 Maio 2026 - 17:57
A Organização Mundial de Saúde estima que ocorram anualmente cerca de 685 milhões de casos de gastroenterite aguda por norovírus em todo o mundo, dos quais 200 milhões dos casos serão detectados em crianças com menos de 5 anos. Por ano, são cerca de 200 mil as mortes associadas a este vírus, um quarto das quais em crianças.
Números significativos que podem, ainda assim, estar subvalorizados, tendo em conta que a infecção por norovírus não é de notificação obrigatória, e que muitos casos de gastroenterite aguda não são sujeitos a confirmação laboratorial do microrganismo envolvido.
O que é?
Norovírus é a designação dada a um conjunto de diversas estirpes de vírus pertencentes à família Caliciviridae, da qual são conhecidos, pelo menos, 32 genótipos distintos. A infecção por norovírus é a causa mais comum de gastroenterite viral aguda em todo o mundo, após a introdução de vacinas muito eficazes contra os rotavírus, outra causa frequente de gastroenterite.
Nas regiões de clima temperado é uma infecção mais característica dos meses frios. Atinge todas as faixas etárias, mas é mais relevante nas crianças (sobretudo nas crianças malnutridas), nos idosos e nas pessoas com o sistema imunitário debilitado. São frequentes os surtos de gastroenterite aguda por norovírus, especialmente em locais fechados onde há um contacto físico próximo e frequente, como escolas, lares, hospitais e navios de cruzeiro.
O primeiro surto de gastroenterite em que foi identificado um norovírus ocorreu numa escola em Norwalk, nos Estados Unidos da América, em 1968. Por isto, os norovírus foram conhecidos inicialmente como vírus de Norwalk.
Infecção
A infecção por norovírus ocorre através da boca, ou mais raramente por inalação. O mais comum é ser um contágio directo, de pessoa a pessoa, mas alimentos (especialmente mariscos e saladas), água, mãos e objectos contaminados são também origens frequentes deste vírus. Uma quantidade muito reduzida de vírus (entre 10 e 100 partículas) pode ser suficiente para causar uma infecção.
Na origem de uma contaminação por norovírus estão os vómitos e as fezes de pessoas infectadas. Os aerossóis que se formam com os vómitos contêm uma grande quantidade de vírus e podem estar as superfícies que atingem e infectar pessoas próximas. Esgotos e águas residuais podem ter concentrações elevadas de vírus. A contaminação de águas superficiais também é possível, especialmente em épocas chuvosas.
Os norovírus são muito resistentes e mantêm-se viáveis durante muito tempo. Toleram uma vasta gama de temperatura, desde temperaturas de congelação até valores superiores a 50ºC.
Prevenção
Existem múltiplas vacinas em investigação para combater o norovírus, mas nenhuma está disponível para uso generalizado. A prevenção passa, sobretudo, pelo reforço da limpeza e desinfecção, e pela atenção a alimentos e água. Como em outras infecções, a lavagem correcta e frequente das mãos é uma medida essencial, particularmente importante depois de usar a casa de banho e antes de manusear alimentos ou bebidas.
Outra medida de prevenção eficaz passa pelo isolamento, sendo importante manter as pessoas infectadas afastadas umas das outras o mais possível. O isolamento deve manter-se alguns dias após os sintomas terem desaparecido. É necessário reforçar a limpeza nos locais onde tenham estado pessoas infectadas, sendo a lixívia a opção mais eficaz, e as casas de banho o local que merece mais cuidados. No contacto com pessoas infectadas, é aconselhado o uso de máscara e luvas descartáveis.
Os alimentos devem ser bem cozinhados, os vegetais e frutas bem lavados, e deve ser dada atenção a alimentos em cuja cadeia de produção possa ter sido usada água contaminada. Deve optar-se por água engarrafada, ferver ou desinfectar a água.
Sintomas e tratamento
Os sintomas de gastroenterite aguda por norovírus ocorrem, regra geral, entre 12 a 48 horas depois da infecção. Os sintomas mais comuns são vómitos e diarreia aquosa de início súbito, e dor de estômago. Pode ocorrer, com menor frequência, febre baixa, dor de cabeça e mal-estar geral. Nas pessoas saudáveis, estes sintomas desaparecem por si entre um a três dias, mas os vírus continuam a ser eliminados nas suas fezes durante, pelo menos, mais 48 horas, pelo que continuam a ser fonte de infecção.
O diagnóstico é feito pela análise de fezes (ou vómito), através de múltiplos testes comerciais de biologia molecular. Não existe um tratamento reconhecidamente eficaz para este vírus. Em grupos vulneráveis a infecção pode, mesmo, ser grave. Reforçar a ingestão de líquidos, fazer refeições ligeiras, conforme os alimentos forem tolerados, e repousar são os principais cuidados. Prevenir a desidratação, que pode acontecer pela perda acentuada de líquidos com a diarreia e os vómitos, é a intervenção mais importante. Sinais de desidratação devem motivar a procura de cuidados médicos.