A gratidão não custa nada e tem um vasto valor

Para evitar indignações desnecessárias deixo uma declaração de princípios: o que escrevo só a mim vincula e não é um exercício de equilíbrio para satisfazer ou ferir sensibilidades.

Não escrevo para colher graças nem simpatias, mas apenas para ficar de bem com a minha consciência. Porque a tenho.

Vou continuar a insistir ser uma pedra redonda num buraco quadrado, porque vejo mais do que digo. E digo muito menos daquilo que penso. Não gosto do que não gosto e não preciso pedir desculpa por isso. Tal como não espero que gostem do que eu gosto. Apetência pelo poder nunca fez parte da minha filosofia de vida, nem cabe nos meus horizontes. Prefiro obedecer a mandar, desde que isso não colida com a minha dignidade. Vejo, com alguma apreensão, muita gente à minha volta que molda a sua noção de liberdade conforme dá mais jeito. Ou porque alguém lhe acena com um subsídiozito, um empregozito precário, um sorrisinho amarelo, um elogio duvidoso que lhe afaga o ego ou, simplesmente, porque faz da genuflexão o seu modo de estar na vida. E é assim que nascem e crescem as legiões de “lambe-botas”, que se perpetuam no tempo...

Os tempos são incertos, as coisas acontecem a uma velocidade vertiginosa, quase tudo é relativo. Parece que a nossa vida colectiva entrou numa espiral descendente acompanhada de rudeza, brutalidade, boçalidade, indiferença e totalmente desprovida de empatia. Todos nós falamos muito, teclamos ainda mais, mas o nosso contributo em matéria de civilidade deixa muito a desejar. Sou “profeta“ de gema, não renego as minhas raízes, orgulho-me delas. O autor da frase “nenhum profeta é desprezado senão na sua Terra ou na sua casa” deve ter tido as suas razões. Vem isto a propósito da minha percepção relativamente à atitude de um porto-santense generoso que quase diária e incansavelmente percorre a Ilha, desde a praia à montanha e aos locais mais inóspitos, munido de apetrechos para recolher o lixo que nos envergonha e conspurca o ambiente, atirado e abandono por mãos irresponsáveis. O que mantém esta ilha menos suja de plásticos, latas, vidros, etc.etc.etc. tem o contributo valioso do trabalho voluntário desta pessoa. É serviço cívico e útil. Não o move, certamente ,a atracção doentia pelo espectáculo vazio e pelo show-off, mas o seu amor incondicional ao Porto Santo. Isto não seria necessário se as pessoas não atirassem o lixo ao chão ou ao mar, que o devolve à praia. Tantas vezes reclamamos da sujidade defronte da nossa casa ou da nossa rua onde abundam beatas, garrafas, papéis e embalagens, mas quantos de nós tentamos inverter a situação? Atrás de ecrãs de computadores ou de secretárias é fácil opinar, é fácil comentar as escolhas dos outros, mas expressar publicamente gratidão ou uma palavra de reconhecimento, normalmente passa-nos ao lado. Cai no esquecimento. Isso poderá não configurar desprezo, mas não deixa de ser indiferença na melhor das hipóteses. Fico perplexa, ou talvez não, perante o mutismo de gente que está vocacionada a falar, ou pelas funções que desempenha ou pelas responsabilidades que tem. Se, eventualmente, eu estiver induzida em erro, antecipadamente peço desculpa, mas confesso que não li, nem ouvi uma palavra a respeito. Sei que há pessoas que aceitam o convite para um cargo que, se o espelho da vaidade não as cegasse, reconheceriam a sua incapacidade e o perfil inadequado. Fechados em casulos de autossuficiência nunca enxergaremos para além do nosso umbigo. Como dizia o Papa Francisco, na sua inigualável humildade, “temos de usar e abusar de duas palavras: Desculpe e Obrigada”. Cuidar do património público é também cuidar das pessoas que lá vivem. Todos os porto-santenses merecem respeito e o Porto Santo não pode ser visto só como destino idílico de férias. Precisamos de investimentos necessários para que vivamos com todas as condições sociais e económicas, mas não se pode perder de vista a sustentabilidade, a caracterização da paisagem, a nossa identidade territorial e o nosso bem-estar. Continuo a usar a minha carteira profissional de cepticismo e desconfio de muito folclore e euforia. Penso que precisamos ser mais exigentes. Antes de pertencermos ao “clube A ou B” somos pessoas. Com direitos e com deveres. Pelo que me toca, sou infinitamente grata pelo que tenho, pelo que sei e pelo que sou. A gratidão não custa nada e tem um vasto valor.

Madalena Castro