Há 50 anos: O Dia Antes da Revolução
No ‘Canal Memória’ de hoje saiba o que era notícia da Madeira no último dia do Estado Novo
Na quarta-feira, 24 de Abril de 1974, a Região lia as primeiras palavras do seu novo bispo e planeava a eleição da Miss Madeira. No continente, prendia-se uma revolucionária do passado, enquanto o mundo se preparava para celebrar o pai da rádio. Mal sabiam os madeirenses que, ao sintonizarem as suas rádios na manhã seguinte, o país teria mudado para sempre.
No topo da atualidade madeirense estava a chegada de D. Francisco Antunes Santana. Tinha sido ordenado bispo apenas três dias antes (21 de Abril), em Lisboa.
O DIÁRIO publicava, então, o seu primeiro contacto oficial com os fiéis através da imprensa, na qual o bispo falava em "dedicação ao bom Povo do Arquipélago", sem saber que, em menos de 24 horas, o regime que o nomeou cairia.
Aos Leitores do Diário de Notícias, no dia da minha ordenação episcopal envio a minha saudação amiga com uma bênção que desejo traduza toda a minha dedicação ao bom Povo do Arquipélago da Madeira D. Francisco Santana
Este bispo viria a ser uma das figuras mais influentes (e polarizadoras) da Madeira pós-25 de Abril, sendo um aliado crucial de Alberto João Jardim na consolidação da Autonomia e no combate às forças de esquerda na Região.
No país, enquanto a revolução se preparava na sombra, a notícia nacional de destaque era a detenção de Maria Helena Vidal. Ela participara, 12 anos antes (1961), no primeiro desvio de um avião comercial no mundo para fins políticos (a "Operação Vagô"), onde foram lançados panfletos contra Salazar sobre Lisboa. O irônico? Foi detida por uma vida "pacata" no Porto, precisamente na véspera de o regime que a perseguia chegar ao fim.
No plano internacional, o DIÁRIO destacava a preparação do centenário de Guglielmo Marconi (nascido a 25 de Abril de 1874).
É uma coincidência histórica deliciosa: no dia em que o mundo celebrava o homem que inventou a rádio, seria precisamente através da Rádio – o Rádio Clube Português – que os portugueses saberiam que a ditadura tinha acabado.
Já a secção de lazer mostra uma Madeira que tentava ser cosmopolita. Os bilhetes para o concurso Miss Madeira 74 – vendidos no Hotel Savoy e no Hotel Apartamento a Torre – estavam a esgotar. Era o entretenimento puro de uma sociedade que ainda não discutia política abertamente.
No Cinema, o Funchal dividia-se entre o suspense de ‘O Pássaro com Plumas de Cristal’, de Dario Argento, e o musical ‘O Último Couplé’, com a icónica Sara Montiel.
Na TV, a programação da RTP Madeira era curta e rígida. Começava às 19h30 com ‘TV Juvenil’ e terminava às 23h30. O destaque da noite era a série ‘A Família Strauss’, um clássico da época que trazia um pouco de cultura europeia aos lares madeirenses.