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Núncio apostólico considera que media dá menos atenção a Leão XIV porque ele não grita

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FOTO TIAGO PETINGA/LUSA

O núncio apostólico em Lisboa afirmou hoje que os media não estão a dar tanta atenção ao Papa Leão XIV como a Francisco, porque tem um estilo diferente, "não grita", apesar de ter discursos igualmente "fortes e lúcidos".

Em entrevista à Lusa, Andrés Carrascosa Coso, que foi colega de universidade do então sacerdote Robert Prevost, lamentou que a opinião pública esteja desatenta sobre o que tem dito o Papa.

Os "media não estão dando tanta importância às palavras de Leão XIV, porque não grita", ao contrário do que sucedia com o estilo de Francisco e a "maneira como se expressava atraía os media", explicou o núncio, nomeado em janeiro para Portugal.

O "Papa Leão fala com grande serenidade mas isso não faz notícia", apesar de estar a "dizer coisas enormes", nas suas intervenções públicas.

"Não estou a ver tantos líderes que falem tão claro, sem ofender, sem faltar à claridade e sem faltar à verdade" e "ele está a falar coisas muito fortes" e "assertivas" sobre os problemas do mundo, considerou Carrascosa Coso, que recordou a recente visita papal.

Leão XIV "falou coisas muito fortes na Turquia e no Líbano, mas quem seguiu esses temas? Os nossos media não estão a dar atenção", disse o arcebispo espanhol, que apontou mais uma diferença de estilo do que de substância.

"Percebo que não está resultando interessante" para os jornalistas porque Leão XIV "não é uma pessoa de gestos impactantes, é uma pessoa que fala com muita serenidade", mas também não foge ao confronto, como sucedeu no passado.

Quando era apenas cardeal, Robert Prevost reagiu às alegações do vice-presidente norte-americano JD Vance sobre a fé católica, hierarquizando o amor cristão pelo próximo.

"É uma explicação que não tem sentido na doutrina católica" e "lembro-me que o cardeal Prevost respondeu no Twitter com um texto muito simples: 'senhor vice-presidente, o senhor está errado'", recordou Carrascosa Coso.

"Ele sentiu que deveria dizer a um católico que isso não é doutrina católica, mesmo que tenha sido eleito vice-presidente" dos EUA e agora, como Papa, "está a falar com muita clareza, mas o mundo não está escutando".

Agora, em abril, segue-se a primeira viagem apostólica definida durante o pontificado de Leão XIV, que inclui a Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.

"Numa viagem faz diferentes Áfricas e quatro línguas", resumiu Carrascosa Coso.

Começa pela Argélia, "porque é a terra de Santo Agostinho e ele é agostiniano" e Leão XIV aproveita para promover o diálogo com o norte de África.

"O Magrebe é uma região particular, porque foi uma das primeiras zonas onde a cristandade foi mais forte, mas que, depois, o islão varreu" na sua conquista, recordou o núncio, salientando que, hoje, a região é de transição e de convívio inter-religioso.

"Há um erro grande que é achar que todos os muçulmanos são radicais terroristas", disse, dando o exemplo do "Magrebe, uma sociedade normal onde há uma relação saudável entre muçulmanos, cristãos e judeus".

E "quando começa a haver terrorismo, com esse extremismo e radicalismo, o maior número de vítimas são os muçulmanos", recordou.

Depois, nos Camarões, Leão XIV não se vai limitar a visitar a capital e vai à "parte anglófona de um país partido numa guerra civil", procurando respeitar as diferentes culturas do continente.

Finalmente, Leão XIV vai terminar a visita "num país lusófono", Angola, e no único país que "fala espanhol", a Guiné Equatorial.

"É uma forma de percorrer África numa viagem", disse.