Funchal teve a madrugada mais fria de sempre?
Temperatura do ar à superfície na baixa do Funchal registou valores raros abaixo dos 9 ºC
A descida acentuada das temperaturas na madrugada desta quinta-feira, na Madeira, gerou a percepção de um episódio excepcional, sobretudo no Funchal. Mas terá sido, de facto, o dia mais frio alguma vez registado na cidade? A resposta exige contexto — e os dados históricos ajudam a clarificar.
A origem da dúvida está nos valores registados ao início da manhã. As estações do Observatório e do Lido, na baixa do Funchal, assinalaram 8,8 ºC entre as 05h20 e as 05h40, um valor pouco habitual numa cidade costeira e de clima ameno como o Funchal. A par disso, a sensação térmica de frio foi amplificada por uma noite prolongadamente fresca, o que contribuiu para a ideia de um eventual recorde.
Temperaturas baixam aos -3,3º no Pico do Areeiro
É a manhã mais fria do Inverno na Madeira, com o Funchal a registar valores raros abaixo dos 9º C
Francisco José Cardoso , Orlando Drumond , 19 Março 2026 - 07:56
No entanto, os registos históricos do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) mostram uma realidade diferente.
A série climatológica do Funchal/Observatório, que remonta a meados do século XX, revela que já houve vários episódios com temperaturas mínimas mais baixas. O valor mais reduzido de toda a série é de 7,3 ºC, registado a 4 de Fevereiro de 1954. Ao longo das décadas seguintes, repetiram-se várias ocorrências abaixo dos 9 ºC, incluindo 7,4 ºC (1981), 7,5 ºC (1957), 7,7 ºC (1972) e 7,8 ºC (também em 1972).
Mesmo olhando para períodos mais recentes, há registos inferiores ao valor desta quinta-feira. A 15 de Março de 2011, a temperatura mínima desceu aos 8,5 ºC, confirmando que o valor agora observado — embora baixo — não é inédito.
Este enquadramento permite uma leitura mais rigorosa: o episódio desta madrugada não foi o mais frio de sempre no Funchal, mas insere-se num conjunto de ocorrências pouco frequentes. De facto, passaram cerca de 15 anos desde a última vez que a temperatura desceu a valores tão baixos (ou mais baixos) naquela estação.
Outra forma de interpretar os dados reforça essa raridade: embora existam vários registos históricos inferiores, a sua concentração ocorre sobretudo entre as décadas de 1950 e 1980, com menos episódios nas últimas décadas. Isso sugere que, no contexto climático recente, valores abaixo dos 9 ºC são menos comuns, ainda que não inéditos.
Importa também distinguir entre “valor raro” e “valor recorde”. Um valor raro pode ocorrer esporadicamente ao longo de décadas, enquanto um recorde implica um extremo absoluto nunca ultrapassado — o que claramente não se verifica neste caso.
Nas zonas de maior altitude da Madeira, o contraste com os registos históricos é ainda mais evidente. No Pico do Areeiro, foram registados -3,3 ºC, enquanto no Chão do Areeiro os históricos indicam temperaturas tão baixas como -7,0 ºC, sobretudo no início da década de 1990. Mesmo considerando que as listas disponíveis destacam apenas os extremos mais severos, é possível afirmar com segurança que já ocorreram episódios substancialmente mais frios.
Este ponto é relevante do ponto de vista jornalístico: a ausência de valores intermédios completos impede afirmar se o valor de -3,3 ºC é o mais baixo das últimas décadas, mas permite garantir que não é um mínimo histórico.
Em síntese, os dados mostram que a madrugada desta quinta-feira foi, sem dúvida, fria e pouco comum no Funchal, sobretudo no contexto dos últimos anos. Contudo, não há evidência que sustente a ideia de um recorde absoluto.
A percepção pública de um evento “sem precedentes” resulta, em grande medida, da combinação entre valores baixos, menor frequência recente destes episódios e a experiência directa da população — factores que, embora relevantes, não substituem a análise climatológica de longo prazo.