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Sudão do Sul é dos locais mais perigosos do mundo para equipas humanitárias

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O Sudão do Sul é um dos locais mais perigosos do mundo para trabalhadores humanitários, com 350 ataques contra equipas e instalações humanitárias registados em 2025, um aumento face aos 255 do ano anterior, alertou hoje a ONU.

Os dados foram avançados ao Conselho de Segurança da ONU pelo subsecretário-geral para Operações de Paz, Jean-Pierre Lacroix, que indicou importantes desenvolvimentos no Sudão do Sul ao longo do último mês, reforçando a "contínua fragilidade do país".

Apesar das garantias do Governo, os trabalhadores humanitários relatam restrições persistentes de acesso, principalmente às áreas controladas pela oposição.

Estas restrições estão a ocorrer no meio do pior surto de cólera do país, com mais de 98.000 casos reportados desde o início da epidemia, em setembro de 2024.

"A situação está a deteriorar-se ainda mais com o ressurgimento da cólera no estado de Jonglei, onde o número de casos está a aumentar constantemente", disse Lacroix.

As restrições de voo e os bloqueios de circulação estão a impedir evacuações médicas e a atrasar a entrega de mantimentos vitais a comunidades especialmente vulneráveis num momento crítico.

Paralelamente, há relatos repetidos de ataques e pilhagens a instalações de saúde, gabinetes humanitários, veículos e outros recursos essenciais, prejudicando ainda mais a resposta à cólera e as operações humanitárias em geral.

Um grande número de pessoas está abrigado em áreas abertas ou estruturas improvisadas com acesso limitado a alimentos, cuidados de saúde e proteção.

A violência em Uror e Nyirol, por exemplo, obrigou ao encerramento de 24 centros de nutrição, interrompendo o atendimento a 7.868 crianças (incluindo 2.633 com desnutrição aguda grave) e 2.764 mulheres grávidas e lactantes.

Além disso, o impasse político entre os principais signatários do Acordo Revitalizado de 2018 para a Resolução do Conflito na República do Sudão do Sul continua a alimentar tensões crescentes.

Lacroix descreveu uma escalada acentuada da violência em Jonglei entre as forças governamentais e da oposição, sublinhando que os relatos de bombardeamentos aéreos, retórica inflamada, deslocações em massa e severas restrições ao acesso humanitário são motivo de grande preocupação.

Mais de 280.000 pessoas foram deslocadas devido aos combates só no estado de Jonglei.

As Nações Unidas, a União Africana e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) deixaram claro: "não existe uma solução militar e o Acordo Revitalizado continua a ser a única estrutura viável para a paz e a estabilidade".

As entidades continuam preocupadas com as medidas unilaterais para alterar o acordo, incluindo propostas para adiar o processo de elaboração da Constituição até depois das eleições.

"Se levadas avante, tais mudanças alterariam a primazia do acordo e a sua precedência sobre a legislação nacional", alertou o subsecretário-geral para Operações de Paz da ONU.

Na reunião de hoje do Conselho de Segurança participou também George Aggrey Owinow, presidente interino da Comissão Conjunta de Monitorização, responsável pela implementação do Acordo Revitalizado, que alertou para o facto de a situação política e de segurança no Sudão do Sul continuar a deteriorar-se.

Entretanto, as fações em conflito têm violado gravemente o cessar-fogo e os combates não mostram sinais de arrefecimento.

"Com o tempo a esgotar-se rapidamente, qualquer deterioração adicional da situação de segurança [...] representa um grande risco para o Acordo de Paz", sublinhou Owinow.

O país africano sofreu uma guerra de cinco anos que matou cerca de 400.000 pessoas e terminou com o acordo de paz de 2018, que estipulava um acordo de partilha de poder entre o Governo e a oposição, mas cujas principais disposições nunca foram aplicadas.