DNOTICIAS.PT
Fact Check Madeira

Os surtos de sarna só acontecem em locais com má higiene?

Lares e hospitais são locais propícios ao aparecimento de sarna devido ao tipo de actividade que desenvolvem
Lares e hospitais são locais propícios ao aparecimento de sarna devido ao tipo de actividade que desenvolvem, foto Rui Silva/Aspress

A notícia sobre casos confirmados de sarna num lar da Região (Atalaia Living Care) gerou uma onda de reacções nas redes sociais. Entre expressões de choque, indignação e revolta, repetiu-se uma convicção muito antiga: a de que a sarna é uma doença “de outros tempos”, associada a pobreza extrema e, sobretudo, a falta de higiene. Para vários leitores do DIÁRIO, a simples existência de um surto seria prova directa de sujidade, negligência ou ausência de produtos de limpeza.

Este fact check não avalia o caso concreto da instituição referida – isso exigiria dados clínicos, inspecções e auditorias. Avalia apenas uma pergunta objectiva: do ponto de vista científico, um surto de sarna pode acontecer mesmo em lares e hospitais muito limpos e com boas rotinas de higiene?

Este trabalho é realizado, na parte da procura de fontes e estudos oficiais sobre a doença, com apoio de ferramentas de inteligência artificial. Assim, foi-nos possível encontrar documentos da Organização Mundial de Saúde (WHO), da Acta Médica Portuguesa, do SNS, do HNS (serviço de saúde inglês), da MSD Manuals, da UKHSA (UK Health Security Agency, a agência nacional de segurança sanitária do Reino Unido) e do CDC (Centers for Disease Control and Prevention - Estados Unidos) entre vários outros, que sustentam cientificamente o que afirmamos de seguida.

A sarna (escabiose) é uma doença cutânea causada por um ácaro microscópico, o Sarcoptes scabiei, que escava túneis na camada superficial da pele para aí viver e depositar ovos. O sintoma mais conhecido é a muita comichão, muitas vezes mais forte à noite, acompanhada de lesões e irritação, mas o quadro pode variar muito. Em idosos, pessoas acamadas, doentes com problemas neurológicos ou pele fragilizada, a apresentação pode ser atípica e confundir-se com eczema, alergias, prurido do idoso ou reacções a medicamentos, atrasando o diagnóstico. Além disso, existe um ponto pouco intuitivo para o público: após a infestação, pode haver um período prolongado até surgirem sintomas. Autoridades de saúde pública referem que a pessoa pode passar semanas sem sinais evidentes, o que facilita a transmissão ‘silenciosa’ antes de alguém suspeitar do problema.

É também essencial distinguir a sarna ‘clássica’ da forma mais grave, a sarna crostosa (por vezes chamada “norueguesa”). Na sarna comum, a transmissão ocorre sobretudo por contacto pele-com-pele prolongado. A transmissão por roupa de cama, toalhas ou superfícies existe, mas tende a ter um papel menor. Já na sarna crostosa, típica de pessoas muito debilitadas ou imunodeprimidas, a carga de ácaros pode ser enorme e a doença torna-se muito mais contagiosa; nesse cenário, as orientações de saúde pública admitem maior importância da contaminação indirecta por escamas/crostas e recomendam medidas reforçadas. Este ponto é decisivo para entender porque é que alguns surtos em instituições se tornam difíceis de travar: um único caso crostoso, se não for reconhecido a tempo, pode funcionar como ‘amplificador’ do surto.

É aqui que o mito da ‘falta de higiene’ colide com a evidência. A Organização Mundial da Saúde descreve explicitamente surtos em lares, unidades de cuidados continuados e hospitais, e sublinha que podem ser prolongados e difíceis de controlar. Se a sarna fosse essencialmente um marcador de sujidade, não existiriam recomendações tão detalhadas para contextos clínicos e institucionais em países com protocolos rigorosos de limpeza.

O mesmo se observa nas normas: o CDC tem estratégias específicas para surtos em “institutional settings” (ambientes institucionais, como lares e hospitais) e as autoridades do Reino Unido (UKHSA) publicam orientação dedicada para lares e outros contextos ‘fechados’, exactamente por serem ambientes onde há muita proximidade, cuidados ‘mãos-na-pele’ e redes de contacto intensas. A lógica é epidemiológica: em instituições, os utentes precisam de apoio para banho, vestir, mobilização, transferências cama-cadeira, fisioterapia ou cuidados de feridas; os profissionais alternam turnos; existem transferências entre hospital e lar; e há visitas. Tudo isto aumenta as oportunidades de contacto prolongado que favorece a transmissão, independentemente de um elevado grau de limpeza, com o chão a brilhar ou de haver detergente em abundância.

Também é importante corrigir outra ideia repetida nos comentários: a de que a sarna “já devia estar extinta” e que, se aparece, “surge do nada”. A sarna continua a existir em todo o mundo e não é exclusiva de contextos pobres. Há exemplos muito foprtes em países considerados de ‘primeiro mundo’. No Reino Unido, um estudo publicado na The Lancet Infectious Diseases analisou surtos em dez lares de idosos e concluiu que são relativamente comuns e frequentemente agravados por atrasos no diagnóstico, com episódios difíceis de controlar.

Nos Estados Unidos, o CDC mantém e actualiza recomendações para gestão de surtos em hospitais e instituições, o que reflecte a realidade de ocorrência nesses contextos. Ou seja: a presença de sarna numa instituição não é, por si só, razão para considerarmos algo de ‘Terceiro Mundo’; é um fenómeno reconhecido em sistemas de saúde avançados, precisamente por causa da dinâmica de contacto e da vulnerabilidade dos doentes.

As próprias orientações internacionais ajudam a perceber onde está o núcleo do problema. A limpeza e a lavandaria são relevantes, sobretudo se houver sarna crostosa, mas não são a medida central. O controlo eficaz passa por reconhecer rapidamente os casos, confirmar o diagnóstico, aplicar precauções adequadas e, acima de tudo, tratar casos e contactos próximos de forma coordenada, pois se se tratar apenas ‘quem tem comichão’, podem ficar reservatórios assintomáticos a reiniciar a cadeia de sarna.

Por isso, se se reduzir a sarna à “falta de higiene”, as pessoas terão mais tendência a esconder sintomas, a adiar a procura de cuidados e a transformar um caso controlável num surto.

Pelo exposto podemos concluir que, na análise do tema, é crucial separar duas coisas: uma é perguntar se um surto pode ocorrer em local limpo (questão científica); outra é concluir que num caso concreto “não houve falhas” (questão factual específica, que, como vimos acima, este texto não pretende nem pode resolver). Do ponto de vista da ciência e das normas de saúde pública, a resposta à primeira pergunta é clara.

A frase da leitora, no mesmo sentido de vários comentários que aponta “falta de higiene (no lar), no hospital é igual… não há produtos de limpeza” é, como explicação geral para surtos de sarna em lares e hospitais, falsa. A evidência científica mostra que os surtos podem ocorrer mesmo em instituições bem cuidadas, devido a contacto próximo, atrasos diagnósticos e, em alguns casos, sarna crostosa.

“Falta de higiene (no lar) e no hospital é igual não há produtos de limpeza” – G. Pereira, comentário no Facebook, a justificar o surto de sarna, em notícia sobre o Atalaia Living Care