Docentes podem ser todos. Professores, só alguns

Não serão alguns casos residuais que, no imenso oceano da classe docente, constituirão mancha indelével na sua reputação. Sem expressão significativa não devem, no entanto, ser escamoteados. Quando vemos, ouvimos e lemos que nas nossas escolas ocorrem muitas situações de violência física, verbal ou psicológica entre as nossas crianças e jovens, não podemos ignorar que entre alguns docentes em exercício de funções também acontecem alguns casos de natureza similar, perpetrados no mesmo estabelecimento de ensino, ou não, e no mesmo sector de actividade profissional. Esconder lama sob o tapete é uma ilusão. A sujeira denuncia-se sozinha.

Pessoalmente, não concebo poder ensinar sem educar e educar sem ensinar, daí que me cause alguma apreensão como é que se transmite valores essenciais à formação equilibrada de qualquer ser humano, tanto mais quando se tem nas mãos a responsabilidade do futuro, se se pauta a nossa conduta por comportamentos que deixam muito a desejar, pouco conducentes com a nobre função que nos foi confiada.

Por consequência, abre-se o caminho para um clima hostil no local de trabalho, ao desgaste psicológico, à porta aberta para a depressão e, no extremo, ao suicídio. Regras de humanidade e de decência, que nos definem como pessoas, obrigam-nos à prevalência de certos princípios de que não deveríamos, sob nenhum pretexto, abdicar. Há gente que anda por aí fingindo, tentando parecer leve enquanto semeia veneno capaz de apagar o sorriso de alguém, de quem vê o mundo por outro prisma, que acredita no seu trabalho e faz a diferença no mundo e no coração dos seus “educandos”. Ser educado, reservado, generoso e simples é cada vez mais difícil de encontrar, quando à nossa volta gravita a obscena falta de respeito pelas pessoas, patrocinada por muitos exemplos de pequenez de espírito. E, tudo, na verdade, é uma questão de bom senso, mas também de decência e de respeito. Viver em comunidade, em sentido mais restrito ou mais lato, implica maturidade emocional (que parece faltar a muita gente) e ética relacional que não se aprende em fórmulas rápidas. Há um código deontológico que deve ser seguido com rigor e a ética profissional colocada no topo das prioridades. Torna-se indispensável, e até contraproducente, criar regras que não são cumpridas, impôr comportamentos que não se tem, exigir respeito que não se dá e princípios que não se segue. Não nos cabe julgar imperfeições, mas é necessário identificar o que nos prejudica em qualquer tipo de relacionamento, pessoal ou laboral, que consome a nossa energia e confiança, que nos leva à exaustão e, no limite, por arrasto ameaça a nossa estrutura familiar. Não são os lugares nem os cargos que desempenhamos que nos definem, mas o que deixamos nos outros, porque isso diz tudo de nós. Afirmo-o, com conhecimento de causa, pois essa estrada eu já percorri.

Por último, “A Escola destina-se a transmitir o melhor da humanidade, para que a humanidade seja melhor “E isto só se consegue com bons agentes de ensino, Professores /Educadores. Porque docentes podem ser todos, mas Professores/Educadores só alguns.

Madalena Castro