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Fact Check Madeira

Existem carreiras pela via rápida dos concelhos para o Funchal?

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A utilização dos transportes públicos como alternativa ao automóvel particular continua a suscitar discussão na Madeira. Os horários, o tempo das viagens, a frequência das carreiras e a possibilidade de deixar o carro estacionado próximo de uma paragem são algumas das questões que se colocam, em particular, a quem trabalha no Funchal e reside noutros concelhos.

O tema voltou ao debate público, hoje, na sequência do destaque noticioso da edição impressa do DIÁRIO dando conta de que 'Combustíveis caros não tiram carros da Estrada'.

Foi a propósito destas dificuldades que, num comentário nas redes sociais, surgiu a proposta de criar ligações directas entre Machico, Santa Cruz e Ribeira Brava e o Funchal, com partidas ajustadas aos horários de entrada e saída do trabalho. O autor sugeriu, também, a criação de parques de estacionamento, passes especiais e até uma portagem de valor simbólico, procurando incentivar a utilização dos transportes colectivos.

A proposta assenta na ideia de que não existem carreiras rápidas a ligar aquelas três localidades ao Funchal. Mas será que essas ligações ainda estão por criar ou já fazem parte da rede de transportes públicos da Madeira?

A verificação da afirmação foi feita com recurso aos horários e informações divulgados pelos operadores de transportes públicos, à informação do sistema SIGA e a notícias publicadas no DIÁRIO, incluindo reportagens sobre as condições em que são realizadas as viagens.

Para este fact check, consideramos carreiras que utilizam a via rápida como principal ligação ao Funchal, independentemente de efectuarem algumas paragens intermédias. Não se exige, portanto, que o autocarro saia de uma localidade e apenas volte a parar quando chega ao destino.

Esta distinção não é apenas nossa. Em Dezembro de 2025, numa resposta ao DIÁRIO, o Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) esclareceu que a rede SIGA não dispunha, formalmente, de carreiras classificadas como 'Expresso', apesar de essa designação continuar a ser utilizada nos autocarros. O organismo explicava que algumas circulações recorriam à via rápida e à via expresso durante parte do trajecto, embora efectuassem várias paragens.

Ou seja, a designação do serviço (já abandonada) não deve ser confundida com o percurso efectivamente realizado.

Comecemos por Machico.

A ligação entre esta cidade e o Funchal através da via rápida não é uma novidade. Os horários da Companhia de Autocarros da Madeira (CAM) já identificavam viagens expresso, algumas delas com a designação 'Expresso directo', particularmente nas primeiras horas da manhã.

Na edição de 7 de Dezembro de 2025, o DIÁRIO dava conta de que, entre as 9 horas e as 17h30, existiam partidas de Machico de meia em meia hora. Antes desse período, entre as 7h05 e as 9 horas, a frequência era superior, incluindo viagens identificadas como directas.

No sentido inverso, do Funchal para Machico, a mesma reportagem indicava partidas de 30 em 30 minutos entre as 11 e as 19h30, embora com excepções em determinados períodos.

Estes horários correspondem à informação publicada em 2025 e não devem ser confundidos com uma confirmação de todas as partidas actualmente praticadas. São aqui considerados somente para demonstrar que as ligações rápidas não são uma proposta inteiramente nova.

Santa Cruz beneficia, por sua vez, das carreiras que percorrem o corredor entre Machico e o Funchal. A própria reportagem do DIÁRIO acompanhou viagens interurbanas que serviam os concelhos de Machico e Santa Cruz, recolhendo testemunhos de passageiros que utilizavam estas ligações nas deslocações diárias.

Foi o caso de Maria Perestrelo, residente em Santa Cruz, que descreveu as dificuldades de quem apanhava o autocarro nas primeiras horas da manhã, sobretudo quando os veículos chegavam às paragens já com os lugares ocupados.

Também a Ribeira Brava dispõe de carreiras que utilizam a via rápida para chegar ao Funchal. A ligação encontra-se identificada na rede SIGA, nomeadamente através da carreira (nova) 200, anteriormente associada aos serviços rápidos da Rodoeste. Algumas viagens efectuam paragens intermédias, como na Quinta Grande, regressando depois à via rápida.

O facto de existirem essas paragens não altera a natureza da ligação que estamos a analisar. Uma carreira que percorre a maior parte do trajecto pela via rápida não deixa de o fazer por sair momentaneamente para largar ou recolher passageiros.

Portanto, nos três casos, encontramos serviços que correspondem, no essencial, ao tipo de ligação cuja criação é sugerida no comentário.

Outra questão é saber se existem em número suficiente, se circulam às horas mais convenientes e se conseguem transportar todos os passageiros. E, neste ponto, as reclamações não são de agora.

Na edição de 7 de Dezembro de 2025, o DIÁRIO publicou uma reportagem, realizada em diferentes viagens entre Machico e o Funchal. Numa delas, com partida às 10 horas, o autocarro já tinha todos os lugares sentados ocupados quando saiu do terminal de Machico, apesar de não ser hora de ponta. Na paragem de Água de Pena, junto ao Bairro dos Pescadores, houve passageiros que não conseguiram entrar devido à lotação.

Naquela data, o DIÁRIO registou, também, queixas de passageiros sobre atrasos e viagens que não se realizaram nos horários anunciados.

Confrontado com as reclamações, o IMT admitiu a existência de problemas, identificando os atrasos pontuais como o motivo mais frequente das queixas, mas não revelou quantas tinham sido apresentadas. Reconheceu, ainda, dificuldades na contratação de motoristas, uma limitação com consequências na possibilidade de reforçar as carreiras.

São situações que ajudam a compreender a insatisfação de quem utiliza diariamente os transportes públicos. A existência de um autocarro num determinado horário não garante que haja lugar para todos os passageiros, nem que a viagem se realize sempre dentro do tempo previsto.

Também a proposta de associar estacionamento às ligações rápidas merece ser considerada separadamente. Em Machico, há estacionamento nas proximidades de uma das paragens utilizadas antes da entrada na via rápida. Contudo, a existência de um parque não significa, por si só, que esteja integrado num sistema de estacionamento e transporte colectivo, com condições próprias para quem deixa o automóvel e prossegue a viagem de autocarro.

A análise permite, assim, distinguir duas realidades. Por um lado, existem ligações pela via rápida entre Machico, Santa Cruz e Ribeira Brava e o Funchal, contrariando a ideia de que esses serviços estão por criar. Por outro, a sua existência não invalida as reclamações relativas à frequência das carreiras, à lotação dos veículos e ao cumprimento dos horários.

Pelo exposto, a afirmação de que não existem carreiras pela via rápida a ligar as três localidades ao Funchal é avaliada como falsa. Essa classificação incide exclusivamente sobre a existência das ligações e não sobre a suficiência ou qualidade da oferta de transportes públicos.

'Não existem carreiras directas de Machico, Santa Cruz e Ribeira Brava para o Funchal' – Síntese de comentário de J. Freiras, no Facebook do dnoticias.pt