Mergulhadores científicos comparam zonas com protecção e sem protecção na Madeira
Os mergulhadores científicos da expedição Madeira Ocean estiveram hoje a identificar espécies dentro e fora da reserva natural do Garajau e a conclusão é clara: há maior biodiversidade na área de proteção.
"Confirmámos que a reserva do Garajau tem um efeito positivo para a preservação e crescimento da biodiversidade e, comparativamente a uma zona fora, em que há extração, nomeadamente a pesca e outras atividades humanas, vê-se claramente que as áreas marinhas protegidas têm um efeito fundamental nessa conservação", afirmou à agência Lusa um dos coordenadores das equipas de mergulho científico, Filipe Henriques.
A reportagem da Lusa esteve hoje a acompanhar os cientistas nos mergulhos efetuados a 10 e a 20 metros, em duas zonas próximas, uma dentro da reserva natural do Garajau, onde é proibida qualquer atividade de pesca, e outra, a cerca de um quilómetro de distância, onde já não existe proteção.
"Nós no primeiro mergulho vimos imensas espécies de peixe, por exemplo vimos peixe cão, meros, badejos e vimos um ratão. E, fora da área marinha protegida, já não vimos essas espécies. Portanto, aí vê-se logo a diferença", salientou Filipe Henriques.
Os mergulhadores científicos estiveram a fazer os sensos visuais "de espécies que estão na coluna de água, nomeadamente os peixes, e espécies que vivem no fundo do mar", explicou.
E, no fundo marinho, é também possível verificar que existe um maior equilíbrio ecológico nas áreas protegidas, nas quais "não é uma só espécie a colonizar todo o fundo", assinalou o biólogo.
Fora da área protegida, foram vistas menos espécies "e isso é um sinal de que há um desequilíbrio ecológico", acrescentou.
"A principal tecnologia é os nossos olhos, na verdade", afirmou, acrescentando que os investigadores vão munidos de outros equipamentos, como câmaras de filmar, e fazem também recolhas de amostras de espécies que por vezes não são possíveis de identificar.
As informações recolhidas irão, depois, ser transmitidas aos decisores políticos para que tenham "uma visão abrangente do que é que se passa nestas zonas para que possa decidir com base na melhor informação disponível".
Duas equipas de mergulhadores saíram hoje de manhã do antigo bacalhoeiro Santa Maria Manuela, o principal navio de apoio à expedição Madeira Ocean, que começou em 02 de outubro e termina no final do mês.
Transportados em dois botes, após ouvirem as regras de segurança transmitidas por José Tourais e prepararem o material, as equipas foram para as zonas previstas para o mergulho científico.
Mas o trabalho não se esgota no fundo do mar. Munidos de amostras, fotografias e registos, voltaram ao Santa Maria Manuela por volta da hora do almoço, onde o trabalho científico continua, agora em terra.
A bordo do antigo bacalhoeiro, os cientistas vão completando a identificação das espécies e a registar o material recolhido em bases de dados.
Foi recolhida, por exemplo, uma amostra de uma esponja marinha que os investigadores não conseguiram identificar e que terão agora de perceber do que se trata, indicou Filipe Henriques.
Luís Silva, um dos mergulhadores científicos, também fez um balanço positivo do trabalho hoje realizado, salientando que estes trabalhos são importantes para a preservação e conservação, assim como para transmitir à população informação em locais inacessíveis à maioria.
"Isto agora, só em cima de água, ainda sem olhar para os dados, foi um mergulho muito bom. Acho que estamos todos com um sorriso na cara", salientou.
Os mergulhadores científicos contam com o apoio técnico e de segurança de um já veterano nestas lides. José Tourais não é cientista, mas é mergulhador desde 1980, e é quem faz a coordenação da segurança.
"Ao longo destes anos, eu já fui fazendo mais de 20 expedições e fui-me habituando aos biólogos e eles foram-se adaptando a mim", disse, para logo acrescentar: "É um casamento feliz, como eu costumo dizer".
"Nós mergulhadores aprendemos imenso com eles e eles também aprendem imenso connosco", realçou.
Ao longo desta expedição, a equipa de mergulhadores têm previsto ainda ir para as zonas do norte da Madeira e do Porto Santo, sobre as quais os cientistas dispõem de menos informação devido às frequentes condições adversas do mar.
A Madeira Ocean 2026 envolve mais de 100 cientistas nacionais e internacionais, de um total de 200 participantes na expedição, incluindo diversas equipas de investigadores de diferentes áreas, com recurso a várias metodologias que incluem tecnologia simples e também de ponta.