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Madeira

Mar da Madeira em estudo durante 28 dias

Cerca de 200 participantes, 34 entidades, mais de 10 embarcações e equipas científicas nacionais e internacionais vão passar 28 dias a estudar os ecossistemas marinhos da Região

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O mar da Madeira vai ser, durante quase todo o mês de Outubro, um verdadeiro laboratório científico. A Expedição Madeira Ocean arrancou esta sexta-feira, 2 de Outubro, e vai levar investigadores e equipas nacionais e internacionais à Madeira, ao Porto Santo e às Ilhas Desertas para estudar os ecossistemas marinhos da Região.

A operação prolonga-se até 28 de Outubro e envolve cerca de 200 participantes, mais de 10 embarcações e 34 instituições científicas, numa iniciativa que pretende reunir informação capaz de apoiar a gestão e conservação das áreas marinhas protegidas da Madeira.

No arranque da expedição, Paulo Oliveira, coordenador do Programa Madeira Ocean, destacou o trabalho desenvolvido ao longo dos últimos três meses para tornar possível uma operação desta dimensão. “É um programa feito de vontades”, afirmou, agradecendo às entidades e equipas envolvidas, salientando que, mesmo quando surgiram dificuldades, “as pessoas apareciam e soluccionavam os problemas”.

A expedição reúne seis promotores, nove parceiros, cerca de 200 participantes, mais de 24 entidades científicas, dez embarcações no mar em simultâneo, 18 jornalistas de 12 órgãos de comunicação social e quatro influenciadores.

Para Paulo Oliveira, o programa pretende “reforçar tudo aquilo que tem sido feito no mar”, acrescentando capacidade de aquisição de conhecimento e investigação ao percurso de conservação iniciado pela Região. Recordou que, em 2022, foi criada uma das maiores áreas marinhas protegidas e defendeu que este trabalho científico permitirá “providenciar conhecimento” para apoiar as decisões sobre o futuro do oceano.

Ao longo das próximas semanas, as equipas vão trabalhar em diferentes ambientes marinhos, desde zonas costeiras até aos ecossistemas de mar profundo, podendo atingir os 1.000 metros de profundidade.

A operação combina mergulho científico, drones, mapeamento acústico, câmaras subaquáticas e veículos autónomos e operados remotamente. O objectivo passa por cruzar diferentes tipos de informação para perceber melhor a biodiversidade existente, o estado dos habitats e as pressões que afectam o oceano.

João Canning Clode, da ARDITI, sublinhou a dimensão tecnológica e científica da operação, considerando que a Madeira “sempre teve uma relação muito próxima com o mar”, mas que esta expedição permite reunir agora uma capacidade particularmente alargada de cientistas e tecnologia.

O investigador destacou ainda a ligação às comunidades que vivem e trabalham no mar. “Esta expedição faz-se também dos pescadores”, afirmou, lembrando que estes podem contribuir para identificar espécies e peixes que não conhecem. “O conhecimento não se esgota nesta expedição, mas será a base”, afirmou.

Uma parte importante dos trabalhos será realizada dentro e fora das áreas marinhas protegidas, permitindo comparar diferentes zonas e perceber padrões relacionados com a biodiversidade e a influência das actividades humanas.

A expedição conta também com a participação da National Geographic Pristine Seas. Paul Rose explicou que o programa ajudou a criar 31 das maiores áreas marinhas protegidas do mundo, abrangendo 6,9 milhões de quilómetros quadrados de oceano.

Na cerimónia de inaguração da expedição, destacou a importância de juntar diferentes equipas e metodologias para obter uma visão mais completa dos ecossistemas. “Hoje, mais do que nunca, precisamos de todos os dados científicos”, afirmou, explicando que um dos objectivos do trabalho é contribuir para decisões de política pública baseadas em conhecimento.

"Todo o conhecimento será imensurável” e os resultados poderão prolongar-se “durante gerações”, considerou.

Por seu turno, Emanuel Gonçalves, da Fundação Oceano Azul, enquadrou a iniciativa na necessidade de responder simultaneamente à crise climática e à perda de biodiversidade. A fundação, explicou, pretende contribuir para a protecção do oceano através da ciência, mas também através da ligação aos utilizadores do mar. “Não há uma opção de ficarmos indiferentes”, afirmou, defendendo que problemas de grande dimensão exigem medidas igualmente ambiciosas.

Emanuel Gonçalves apontou a próxima grande conferência das Nações Unidas para os oceanos como um momento importante para mostrar o trabalho desenvolvido e os resultados obtidos na Madeira.

Já o secretário regional de Turismo, Ambiente e Cultura, Eduardo Jesus, considerou que a expedição surge num momento oportuno, num território que, segundo afirmou, desenvolve uma política de preservação e conservação há mais de cinco décadas. “É útil esta expedição porque importa conhecer melhor para melhor decidir”, afirmou, recordando a existência de reservas marinhas antigas e o alargamento das áreas de conservação, bem como a participação da Região em programas europeus nesta área.

Eduardo Jesus assumiu-se como parte do grupo dos “fazedores”, numa referência à necessidade de passar da análise à acção. “Hoje estou extremamente feliz porque temos 200 fazedores a bordo desta embarcação”, afirmou, destacando a presença de instituições científicas portuguesas e internacionais.

O governante salientou, contudo, que o trabalho científico deverá ser acompanhado por uma relação próxima com as comunidades. “É preciso ter muito cuidado com as comunidades envolvidas”, afirmou, defendendo que “tudo tem de ser feito com equilíbrio”.

A expedição pretende precisamente cruzar conhecimento científico, conservação e utilização do mar. Os dados recolhidos deverão servir de base a um programa de monitorização de longo prazo, permitindo acompanhar a evolução dos ecossistemas e das espécies ao longo dos próximos anos.

A operação conta com uma frota dedicada à investigação e ao apoio, tendo o histórico Santa Maria Manuela como navio principal. Participam ainda outras embarcações, entre as quais o Observatório I, da ARDITI, o catamarã Feel Good I e o navio de pesca Ponta Calhau.

No final dos 28 dias de trabalho, o objectivo é que a Madeira fique com uma imagem mais completa do seu património marinho.

Como resumiu o capitão João Ciriaco a expectativa é que, a 28 de Outubro, todos estejam “mais ricos” em informação, não apenas para a Madeira, mas também para Portugal.