Eritreia e Etiópia deslocam tropas para a região do Tigré
Após meses de tensões, os confrontos recomeçaram a 23 de Setembro na zona norte da Etiópia e a sudoeste da Eritreia
Nos últimos dias, tropas da Eritreia foram destacadas para a região do Tigré, no norte da Etiópia, e forças etíopes dirigem-se para elas, indicaram quarta-feira diversas fontes, gerando receios que um conflito interno se transforme numa guerra regional.
Após meses de tensões, os confrontos recomeçaram a 23 de setembro no norte da Etiópia entre o exército etíope e grupos que se opõem ao governo do Primeiro-Ministro Abiy Ahmed, incluindo as forças do Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF), um partido político que de facto governava o Estado regional desde abril e desafiava a autoridade federal.
No sábado, o exército etíope e a Força de Paz do Tigré (TPF), milícia aliada do governo federal, retomaram Mekele, a capital do Tigré, sem combates, depois da sua população ter sido retirada pelo TPLF.
A Etiópia acusa a Eritreia de apoiar o TPLF, num contexto de rivalidades regionais, particularmente em torno do Mar Vermelho.
Um comandante das TPF, o general Gebreigziabher Beyene, disse hoje à agência de notícias francesa AFP que as tropas pró governo da Etiópia estavam agora posicionadas perto de Wukro, a 50 quilómetro a norte de Mekele e a 70 quilómetros a sul de Adigrat, na estrada que leva à Eritreia.
Hoje, um responsável local e habitantes também relataram a presença nos últimos dias de tropas eritreias em Adigrat, cidade situada a cerca de 40 quilómetros da estrada a sul da fronteira com a Eritreia.
Algumas dessas tropas tomaram a estrada do sul que leva a Wukro e Mekele, segundo as mesmas fontes.
"Há soldados eritreus em Adigrat nos últimos quatro dias, a população está muito preocupada", disse por telefone um responsável local à AFP.
"Tropas eritreias (...) estão a dirigir-se para Idaga Hamus", a cerca de vinte quilómetros a sudeste de Adigrat, na estrada que liga Mekele à fronteira eritreia, relatou um habitante contactado pela AFP. "Elas passam" por Adigrat.
As tropas eritreias e etíopes parecem estar a menos de 100 quilómetros umas das outras.
As tensões, já elevadas, intensificaram-se a 01 de outubro entre os dois países vizinhos com a Etiópia a acusar a Eritreia de "atos de hostilidade e beligerância", levando à rutura das relações diplomáticas restabelecidas apenas em 2018, após dois anos de guerra em grande escala (1998-2000) seguidos de 18 anos de relações geladas.
O general Gebreigziabher das TPF também falou de tropas eritreias "equipadas com armamento pesado" e "que avançaram até Idaga Hamus", acrescentando que drones etíopes intervinham contra estas unidades.
Contactados pela AFP, os governos etíope e eritreu não responderam. Sem desmentir explicitamente a presença de tropas eritreias no norte do Tigré, o ministro da Informação eritreu, Yemane Gebremeskel, declarou na rede social X que "o objetivo fundamental" do governo etíope era "criar uma narrativa enganosa" de 'legítima defesa' para justificar e camuflar a "guerra de agressão" que pretende levar a cabo contra a Eritreia.
Segundo a ACLED, uma ONG que analisa conflitos, as tropas eritreias atravessaram hoje a fronteira em Zelambesa, explicando também que as forças rebeldes do Tigré estão "fortemente presentes" à volta de Wukro, cidade situada na mesma estrada que leva a Mekele.
"As forças eritreias entraram na guerra no Tigré para impedir que o governo etíope e seus aliados alcancem a fronteira e potencialmente combatam no território eritreu", estima a ACLED numa nota de informação.