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Crónicas

Heróis sem capa

Na quarta-feira passada, o voo FZ1073 da FlyDubai levantou do Dubai para Telavive com 174 pessoas a bordo. A meio do caminho, sobre a Arábia Saudita, o copiloto pegou no machado de emergência da cabina e atacou o comandante. O machado não entrou escondido no avião. Faz parte do equipamento obrigatório de qualquer cockpit, existe para partir uma janela ou abrir um painel em caso de incêndio, e está preso a poucos centímetros dos pilotos. A arma do crime estava a bordo porque a segurança do voo assim o exige. O comandante chama-se Smit Machchhar, é indiano e ficou gravemente ferido. Caído no chão da cabina, enquanto o avião mergulhava, usou a força que lhe restava para fazer uma única coisa, destrancar a porta. Os dados de rastreio do voo, analisados por especialistas, mostram o que veio depois. O avião vinha a 34 mil pés e entrou num mergulho com valores de descida que terão chegado aos 32 mil pés por minuto, valores que nenhuma descida de emergência normal atinge. Perdeu-se parte do leme de direção. Há quem diga, com conhecimento de causa, que a fuselagem aguentou por pouco.

Pela porta que o comandante destrancou entraram tripulantes e passageiros, que imobilizaram o agressor. E houve ainda um pormenor interessante, viajava naquele voo, como passageiro, um piloto de reserva da própria companhia. Foi ele que se sentou aos comandos e aterrou o avião em Tabuk.

Os Emirados Árabes Unidos classificaram no sábado o caso como tentativa de ataque terrorista. Segundo fontes citadas pelas agências internacionais, o copiloto era cidadão omanense e teria sido afastado de voar numa companhia do seu país por suspeitas ligadas a extremismo, antes de ser contratado pela Flydubai. A investigação está em curso. Mas há uma coisa que é inegável, morreram zero pessoas num avião que alguém tentou despenhar. E isso não aconteceu por sorte. Aconteceu porque três pessoas diferentes fizeram a coisa certa em segundos. Um homem a sangrar que percebeu que sozinho não ganhava. Passageiros que, ao ouvir ruídos estranhos, correram na direção do perigo em vez de fugir dele. E um piloto que ia de folga e que, em vez de ficar sentado, se levantou. Daqui a duas semanas ninguém se lembra de nenhum dos nomes.

Continuam a existir heróis. Simplesmente não têm capa, têm uniforme, escala e um crachá com o nome em letras pequenas. Em agosto de 2001, um Airbus A330 da Air Transat voava de Toronto para Lisboa com 306 pessoas. A meio do Atlântico, uma fuga de combustível esvaziou os depósitos e os dois motores apagaram-se. Duzentas toneladas transformadas em planador. O comandante Robert Piché e o copiloto Dirk de Jager planaram cerca de 120 quilómetros no escuro e puseram aquilo no chão, na Base das Lajes, na Terceira. Sobreviveram as 306. É o maior voo planado de sempre de um avião comercial e aconteceu em território português, o que não impede que quase ninguém cá conheça a história. Em 1990, num voo da British Airways para Málaga, a janela do lado do comandante rebentou e ele foi sugado para fora, preso pela cintura. Quem o salvou não foi um piloto. Foi um comissário de bordo, Nigel Ogden, que lhe agarrou as pernas e não largou durante cerca de vinte minutos, com as mãos congeladas, enquanto o copiloto aterrava em Southampton. Não morreu ninguém.

Há uma conclusão que retiro destas três histórias .O heroísmo é improviso mas também é treino. Nenhuma destas pessoas acordou excecional nesse dia. Passaram anos em simuladores e em formação de emergência, a repetir procedimentos até à exaustão, precisamente para que no pior minuto da vida o corpo soubesse o que fazer antes de o medo chegar. A coragem apanhou-as preparadas. Isso não lhes tira mérito nenhum, dá-lhes método.

Vivemos num tempo em que chamamos herói a quem marca um golo nos descontos. Gastámos as palavras todas. E depois não sabemos o nome do piloto que ia de folga e que aterrou um avião sem leme, com o comandante no chão a perder sangue.

Frases soltas:

O tema da semana é Cristiano Ronaldo. Já foi Trump, a Ucrânia e tantos outros em que opinião extremadas se digladiam nas redes sociais. Vivemos num tempo em que toda a gente tem certezas de tudo e dúvidas sobre nada. São todos especialistas em todas as matérias, cheios de frases feitas ofendem e atacam quem não concorda com eles. Não contem comigo para esse circo.

A partir de agora quem andar de trotinete sem capacete leva uma multa de 300 euros. Excelente medida que só peca por tardia, primeiro pela segurança dos próprios e depois porque as regras rodoviárias devem ser para todos sem exceção.