"Até os stewards tapavam o nariz"
Mais de quatro centenas de adeptos do Marítimo assistiram ao jogo frente ao Sporting em "condições indignas"
A derrota frente ao Sporting, na terça-feira, não foi o único motivo de desagrado para os adeptos do Marítimo que acompanharam a equipa no Estádio José Alvalade, em jogo da Taça da Liga.
Durante toda a partida, os maritimistas tiveram de suportar um cheiro nauseabundo, aparentemente proveniente da rede de esgotos, que se fazia sentir na bancada destinada aos visitantes, gerando desconforto e indignação entre os presentes.
"Até os stewards tapavam o nariz", relatou Pedro Camacho, um dos mais de 400 adeptos verde-rubros presentes em Lisboa. Segundo o maritimista, até alguns elementos de segurança procuravam proteger-se do odor com as peças de roupa que utilizavam ao pescoço.
Não é normal, nem aceitável. Um espectador que paga o seu bilhete não tem de assistir a um jogo nestas condições Pedro Camacho, adepto do Marítimo
O testemunho é corroborado por João Pedro Vieira, outro sócio do Marítimo, que descreveu a situação como "absolutamente inédita" na sua experiência de acompanhamento do futebol, tanto em Portugal como no estrangeiro.
"Houve adeptos que procuraram reposicionar-se, achando que seria um problema localizado a apenas uma zona da bancada, mas rapidamente compreendemos que o problema se estendia a todo o sector destinado aos visitantes", explicou.
Para o sócio, as condições encontradas não estiveram à altura de um clube da dimensão do Sporting.
Enquanto estivemos na Liga 2, encontrámos muitos estádios com poucas condições destinadas aos adeptos, mas esta foi uma estreia. E torna-se ainda mais inusitada por se tratar de um dos “grandes” de Portugal, que habitualmente se escandalizam quando vão a estádios de clubes mais “pequenos” e enfrentam condições ligeiramente mais adversas, por exemplo ao nível do relvado dos Barreiros ou do nevoeiro da Choupana, que têm sido muito criticados. João Pedro Vieira, adepto do Marítimo
As queixas não se limitaram ao mau cheiro. João Pedro Vieira também denunciou um "excesso de zelo" nas revistas de segurança, durante as quais terão sido impedidos de entrar objectos pessoais, como escovas de cabelo. Pedro Camacho revelou ainda que alguns adeptos, de menor idade, foram obrigados a deixar à entrada autocolantes alusivos ao futebol, habitualmente utilizados para colecção e troca.
Já no final da partida, os maritimistas também terão sido obrigados a aguardar entre 30 e 45 minutos para abandonar o estádio, alegadamente por motivos de segurança, apesar de, segundo João Pedro Vieira, o encontro ter decorrido "sem incidentes".
Espero que estas questões sejam, pelo menos, analisadas pelos responsáveis da Liga e alvo de melhorias. Mas fica mais um mau exemplo de uma Liga que quer muito crescer, mas continua limitada pelos maus préstimos dos seus clubes dito "grandes" João Pedro Vieira, adepto do Marítimo
Marítimo perde com Sporting para a Taça da Liga
O Marítimo foi afastado da Taça da Liga, ao perder com o Sporting (2-1), em partida dos quartos-de-final, disputada no Estádio de Alvalade.
Obras em Alvalade poderão estar na origem do problema
O Oficial de Ligação aos Adeptos do Marítimo, Élvio Faria, confirmou ao DIÁRIO ter recebido reclamações relativamente ao odor, mas adiantou que o problema poderá estar relacionado com as obras em curso no recinto leonino.
"Deve haver alguma sensibilidade de ambas as partes, tanto do Sporting como de quem visita o estádio, para compreender que se trata de uma situação decorrente das obras e que deverá ficar resolvida em breve", afirmou.
O responsável fez, contudo, questão de ressalvar que a relação institucional com o Sporting é "excelente", destacando a forma como a comitiva maritimista foi recebida.
Do lado do Sporting, segundo apurou o DIÁRIO, o clube não recebeu qualquer queixa ou comunicação por parte do Marítimo relativamente à situação.
"A reportagem que (não) se fez em Alvalade"
A título de curiosidade, os episódios de desagrado em Alvalade não são propriamente uma novidade para o DIÁRIO. Em 1986, uma equipa do nosso matutino deslocou-se ao estádio leonino com o objectivo de preparar uma reportagem de antevisão do encontro entre Sporting e Marítimo, que se realizaria nos Barreiros. Contudo, a visita ficou marcada por vários obstáculos que impediram a concretização do trabalho jornalístico.
Apesar de terem chegado com antecedência e explicado o propósito da deslocação, os profissionais viram negado o acesso ao treinador Manuel José, que também não autorizou a recolha de imagens durante o treino.
"Pese embora todas as 'démarches' efectuadas e a posterior boa vontade de funcionários e alguns dirigentes leoninos, foi de todo impossível executarmos a reportagem a que nos propuséramos e que os nossos leitores mereciam", escreveu, na altura, o jornalista do DIÁRIO.
A situação causou ainda maior estranheza porque, apesar de Manuel José ter justificado a recusa com o facto de o treino decorrer à porta fechada, havia público a assistir nas bancadas.
"Feitios... ou Manuel José tomou-nos por espiões ao serviço do Marítimo?", questionava o jornalista, num texto que não poupava críticas à atitude do técnico.
A reportagem só não ficou totalmente por fazer graças à colaboração do médico do Sporting, Fernando Ferreira, que prestou informações sobre a equipa, e a um encontro fortuito com o jogador Oceano.
Manuel José revelou total desconsideração não só pela nossa missão mas, fundamentalmente, pelos madeirenses a quem se destinava a reportagem pretendida
O certo é que, se Manuel José não abriu as portas aos jornalistas, também não encontro a chave para a baliza maritimista. Na partida que dizia respeito à 11.ª jornada da I Liga, os verde-rubros venceram o Sporting por 1-0, no Estádio dos Barreiros, graças a um golo do defesa inglês Colin Hill, aos 21 minutos.