Milhares de manifestantes em protesto pelo direito a uma casa junto ao parlamento
Milhares de apoiantes já enchiam hoje ao final da tarde a rua de São Bento, defronte do parlamento, em Lisboa, obrigando a PSP a interromper o trânsito ainda antes da hora marcada da concentração pelo direito à habitação, às 18:30.
Com cartazes e gritando palavras de ordem, muitos cidadãos responderam à mobilização para hoje, que junta o movimento que organizou a Acampada de Lisboa, no Rossio, e a plataforma Casa Para Viver.
"Mais salário, menos porrada", "todos precisam de um teto, até as tendas. Rua Luís", "a juventude precisa de uma casa para viver" ou "somos mansos mas não somos tansos", podia ler-se nas centenas de cartazes empunhados pelos manifestantes anónimos.
Ao contrário do que se tem verificado nas concentrações realizadas na praça do Rossio, organizadas pela Acampada de Lisboa e que juntam maioritariamente jovens, hoje junto à Assembleia da República havia mais diversidade etária e também menos adereços associados a causas como a Palestina
De início, um coro improvisado cantou músicas de intervenção, mobilizando os presentes que também gritavam palavras de ordem, como "25 de Abril sempre" ou "estamos juntos, estamos fortes".
A cantora Marisa Liz iniciou uma série de concertos improvisados de artistas solidários com a causa agendado para esta noite, cantando uma versão de Zeca Afonso da música "O pintor morreu".
"Estamos numa luta justa, sem violência", começou por dizer a cantora, que, quando alguns polícias desceram a escadaria da Assembleia da República, num acerto do forte dispositivo que rodeia o parlamento, disse: "Juntem-se".
"O nosso país não está à venda", acrescentou a cantora, que defendeu a intervenção da população nas ruas e não apenas através das eleições.
"Um país não se governa só com o Governo" e também é possível "influenciar as decisões no decorrer de cada mandato", disse a artista, arrancando aplausos.
A manifestação ocorre no dia em que começou no parlamento a discussão na generalidade da proposta do Governo de Orçamento do Estado para 2027 (OE2027).
Durante a madrugada de domingo, a PSP dispersou, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas.
Os manifestantes não acataram as ordens, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se, no total, 33 feridos e 33 detidos por desobediência. Em comunicado, as organizações das acampadas referiam dezenas de feridos.
A Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu um processo na sequência das intervenções policiais que aconteceram na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto. Também a provedora de Justiça pediu à PSP, com caráter de urgência, informações sobre a carga policial na madrugada de domingo sobre os manifestantes.
Os partidos de esquerda criticaram a intervenção policial e pediram esclarecimentos ao primeiro-ministro e a intervenção do Presidente da República, António José Seguro.
O chefe de Estado apelou hoje ao diálogo sobre a habitação "e nunca à violência", afirmando que não gostou das imagens que viu, mas que aguarda o resultado dos inquéritos sobre a atuação policial sobre manifestantes.
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos "verdadeiramente acessíveis" à renda.