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Suspender não é sanear

A Igreja vê-se a braços com um transcendente problema. Já abordei o assunto e uma vez basta. A gravidade é tanta que até escrever sobre o tema custa. Pelo que, apesar do pano de fundo ser esse, o texto de hoje tem mais a ver com a deliberação da conferência episcopal, tornada pública e alvo de contestação e incompreensão por parte dos que legitimamente se manifestam.

Tecnicamente parece correcto quando os bispos afirmam que não podem sanear ninguém com base em suspeitas. Hoje é fácil desconfiar e levantar dúvidas. E no direito as pessoas presumem-se inocentes até prova em contrário.

Sabem que é assim que funciona a justiça civil e deitam mão dela para justificar uma inaceitável inacção, que julgo e espero temporária, para com os que são alvo de testemunhos vários que apontam para o cometimento de crimes hediondos.

Não é preciso ser conhecedor do direito canónico para acreditar na existência de expediente que permita resolver o impasse, sem que os factos malignos e os seus autores mereçam o benefício da dúvida, quando as suspeitas, as denúncias e os indícios são fortes e abundantes.

Nesses casos o bispo de cada diocese pode afastar do serviço público e de contactos com a comunidade religiosa os potenciais abusadores, defendendo assim a Igreja e os que nela participam em comum. E é nessa condição que aguardariam pelo veredicto da justiça civil. Suspensos, distantes e inactivos.

É isto que, no mínimo, esperam os católicos amargurados com a vergonha trazida a público e desejosos de ver a sua Igreja limpa para que a possam frequentar sem medo e com convicção. E que as deliberações sejam tomadas de forma ética e moral pensando nas vítimas e jamais nos prevaricadores.