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Crónicas

As primeiras chuvas

As primeiras chuvas deixavam poças de água nas irregularidades do alcatrão e era preciso dar pulinhos e fugir dos carros para não molhar os sapatos e sujar as pernas. O calor pegava-se à pele, à roupa e os azulejos da cozinha transpiravam como se fossem um ser vivo. E tudo o que me parecia bonito perdia brilho e ficava tristonho visto do postigo da porta da sala. Dali não se via o mar e, nos dias chuva, os eucaliptos e pinheiros, na outra margem do ribeiro, agitavam-se com o vento, aumentavam de tamanho e as ondas hertzianas entravam tremidas na nossa televisão.

A engrenagem que nos mantinha vivos seguia o plano, havia almoço, jantar e a telefonia ficava ligada para ouvir música e as notícias, mas a adolescente que habitava aquela casa com duas laranjeiras no quintal sentia-se retida contra a vontade num lugar onde o estado do tempo dava formas novas aos muros, às arvores e embaciava os vidros das janelas. No calendário da cozinha ainda era Verão, mas a minha mãe, a senhora de cabelo grisalho sentada à janela a bordar, tinha outra perspectiva e, dali em diante até ao início das aulas, eu teria de usar a minha imaginação para sobreviver a Setembro.

Talvez me restasse um ou outro filme se o meu irmão fosse comigo e, mais à frente, teria de ir ver as turmas, os horários e tirar a lista dos livros. Os outros dias seriam ali, entre a casa das minhas tias e a missa ao domingo de manhã. O grupo de jovens estava mais ou menos desfeito, não havia récitas, nem encontros no colégio de Santa Teresinha, nem os retiros ou as conversas no adro da igreja. A minha fé não era a mais robusta, nem aos 15 anos, mas gostava de estar com outras pessoas e nunca perdia as sessões de cinema que organizavam no salão paroquial. A minha mãe não levantava questões, era na igreja, perto de casa e saber a vida de São Francisco de Assis só me podia transformar numa pessoa melhor.

A ideia era boa e talvez fosse melhor não ocupar as horas de tédio com assuntos mundanos como a roupa que havia dentro do meu guarda-fatos e que não seria suficiente para a escola onde, todos os dias, as raparigas mediam forças com os sapatos, as calças, as t-shirts e o cabelo. Neste combate eu sabia já que não tinha trunfos. A roupa ou estava velha ou ia deixar de servir para o Outono, com chuva e dias mais frescos. Se Outubro fosse generoso ainda seria possível andar de sapatos brancos e com aquelas t-shirts, mas depois seria penoso saltar as poças de água e fugir dos carros e sentir que todas as pessoas olhavam para os restos de lama nos meus tornozelos.

A luta estava mais ou menos perdida. A minha mãe nunca me daria muito dinheiro para roupa, nem quando, na quarta-feira dos bordados antes do início das aulas, me levava com ela para depois irmos às lojas, de preferência as mais baratas e onde houvesse o que a dona Celina designava como roupa e sapatos para a chuva, quase sempre muito feios e fora de moda. E aquele ir às lojas era uma guerra que travávamos à frente dos empregados, sempre muito diligentes e a explicar, depois de fazer as contas em cima do papel almaço, que não podiam fazer melhor preço, mas os artigos eram de boa qualidade.

Eu esperneava nos provadores, irritada com a roupa que não estava feita para o corpo que carregava desde os 12 anos e com a senhora de cabelo grisalho, mais preocupada com a qualidade dos produtos do que comigo. Não sei o que me doía mais, se a indiferença se a vergonha que antevia já nos corredores do Girassol onde eu queria entrar outra, diferente e melhor do que a adolescente mais ou menos desorientada dos anos anteriores. E como tudo isto me enchia de medo e me dava a impressão de que continuaria lá, no Laranjal, retida contra a vontade como nos dias de chuva, a ver o quintal, as duas laranjeiras e o cimento molhado do postigo da porta da sala.

No caminho de casa, a ver a cidade a ficar para trás pela janela do autocarro, prometi, nesse dia e em muitos outros depois desse, que seria mais do que disso, que queria mais do que isso. Às vezes pergunto-me se fui, se sou.