Antes da primeira aula
Setembro tem os seus rituais escolares, e as reuniões antes do início das aulas são seguramente um deles. Um meme recente sobre o regresso às escolas sintetizava essa realidade com humor, através de uma pergunta aparentemente simples: porque é que, em setembro, os professores não podem simplesmente chegar, entrar na sala de aula e começar a dar aulas? Porque é que esse regresso tem de ser antecedido por reuniões, encontros e diferentes momentos de preparação? A pergunta fez-me sorrir, até porque, estando hoje também do lado de quem convoca algumas dessas reuniões, não pude deixar de reconhecer algum desconforto na provocação.
Há, no entanto, uma diferença entre trabalhar numa instituição e pertencer-lhe. Podemos conhecer profundamente a nossa área, desempenhar muito bem a nossa função e fazer um excelente trabalho com os nossos alunos. Felizmente, é isso que acontece todos os dias nas nossas escolas. Mas uma escola é também algo mais do que a soma das muitas salas onde acontecem boas aulas. É uma comunidade de alunos, professores e funcionários, com projetos, desafios, responsabilidades e objetivos que se cruzam.
No Conservatório, esta ideia encontra uma expressão particularmente clara nas próprias linguagens artísticas que integram a nossa oferta formativa. A música, a dança, o teatro ou as artes visuais mostram-nos constantemente que a qualidade individual é indispensável, mas que muitas das melhores coisas acontecem quando diferentes competências encontram um propósito comum. Uma orquestra precisa de bons instrumentistas, naturalmente, mas precisa também de escuta. Um espetáculo precisa de bons intérpretes, mas ganha outra dimensão quando todos compreendem o que estão a construir em conjunto. Com as instituições acontece algo semelhante.
E há aqui uma segunda ideia que me interessa particularmente: uma boa instituição não é aquela onde tudo corre sempre bem. Provavelmente, essa instituição nem existe. É aquela que consegue aprender com aquilo que faz; que observa, experimenta, avalia, corrige e melhora. Uma solução que funcionou ontem pode precisar de ser ajustada amanhã. Um erro reconhecido a tempo pode transformar-se em informação útil. E quando diferentes experiências e perspetivas entram nessa reflexão, aumenta também a nossa capacidade de encontrar respostas melhores
Talvez seja, afinal, uma resposta possível ao meme. Antes da primeira aula, vale a pena encontrarmo-nos algumas vezes para recordar aquilo que facilmente se perde no ritmo do quotidiano: depois, cada um seguirá naturalmente para a sua sala, para os seus alunos e para o seu trabalho. Mas continuamos todos a fazer parte da mesma escola e do mesmo projeto.
“Enquadramentos”, uma vida a ensinar-nos a ver
Foi precisamente nestes dias de regresso que me chegou às mãos “Enquadramentos”, de Isabel Santa Clara, publicado pela Imprensa Académica e pela Câmara Municipal do Funchal. O título não podia ser mais adequado. Enquadrar é escolher um campo de visão, decidir o que fica dentro e o que fica fora, mas é também contextualizar, estabelecer relações e encontrar sentidos. É, no fundo, uma das operações fundamentais do pensamento.
“Enquadramentos” reúne textos de Isabel Santa Clara produzidos ao longo de mais de quarenta anos, muitos deles originalmente dispersos por catálogos, folhetos de exposições, comunicações e publicações periódicas. Reunidos agora num volume com mais de quinhentas páginas, deixam de ser apenas testemunhos das circunstâncias em que nasceram e começam a dialogar entre si. Essa é uma das grandes virtudes do livro: permite observar continuidades, mudanças, artistas, instituições, debates e problemas que atravessaram várias décadas da vida artística madeirense.
Há ainda um segundo mérito, talvez menos visível, mas igualmente importante: combater a dispersão da memória. Uma parte significativa do conhecimento produzido na Madeira continua escondida em catálogos esgotados, pequenas publicações, arquivos pessoais, jornais ou documentação institucional. Por vezes, o conhecimento não desaparece porque tenha sido refutado ou ultrapassado. Desaparece simplesmente porque deixou de ser encontrado. Publicar é também impedir esse desaparecimento.
O índice de Enquadramentos dá uma boa medida da amplitude do percurso de Isabel Santa Clara. Há textos sobre o ensino artístico e o lugar das artes na Universidade da Madeira, sobre a ilha e as suas visões do mundo, sobre as circunstâncias da produção artística insular, sobre exposições, movimentos e percursos individuais, sobre António Aragão, António Nelos e muitas outras figuras fundamentais da criação madeirense. Há também textos sobre livros, imagens, palavras e, sobretudo, sobre maneiras de olhar.
Fiquei, por isso, particularmente contente com a publicação de “Enquadramentos”. Isabel Santa Clara é uma das principais intelectuais da cultura madeirense contemporânea, com um contributo especialmente relevante para o pensamento sobre a arte e sobre o ensino artístico. Este livro preserva uma parte importante desse percurso, mas faz algo ainda mais valioso: permite que esse pensamento continue a ser lido, discutido, questionado e desenvolvido. Talvez seja essa a melhor forma de preservar uma vida intelectual: não a transformar num monumento, mas fazer com que continue a produzir perguntas. Parabéns à Isabel Santa Clara, à Imprensa Académica e à Câmara Municipal do Funchal pelo apoio.