Já que chegou Setembro
Atualmente quem dedica parte da sua vida ao serviço à comunidade - seja na vida política ou associativa - deve viver apreensivo, ou pelo menos insatisfeito. Apreensivo porque o rasgo deixou de ser uma qualidade apreciada, a coragem passou a ser interpretada como temor ou arrogância e, como se não bastasse, desde que alguém assume uma vida com maior exposição mediática passa a ser objeto dos maiores insultos, todos sob o chapéu de opinião. Defender a honra já não é mostra de dignidade, é, para os opinion makers, uma dependência do lugar ou uma escola para manter o status quo. Agem como se fossem providenciais e tudo aquilo que dizem é santo, segundo os próprios.
A moda é ser discreto, procrastinador e um gestor de marés calmas. Uma pessoa que luta pela liberdade? Ou um homem lutar pelo seu direito a servir o seu país, convicto que a vivência do seu amor não é incompatível com a liderança do seu país - tradicionalmente conservador - como fez Sá Carneiro? Não, muito obrigado. Isso é coisa do passado. Hoje, o bom é entrar às 09, sair às 17h e pelo caminho pedir umas burocracias.
Quem se sujeita à vida pública é hoje objeto de um crivo ético que ninguém sabe muito bem qual é, sustentado por pessoas que raramente fizeram mais do que opinar, do alto da sua ignorância, sobre a vida no geral. Desde que encontrem uma multa de trânsito ou uma coima por ter-se atrasado a pagar um imposto, é evidente que esse cidadão não tem condições para continuar no cargo e deve pôr o seu lugar à disposição. Empatia? O que é isso?
Longe vão os tempos em que o dirigismo - fosse qual fosse - era olhado com respeito. Aqueles que profissionalmente construíram uma carreira e que decidiram, em determinado momento, dedicar-se à comunidade são, orgulhosamente, linchados e expostos por ventrículos de interesses. Mas, também, é importante que se diga: muitos dos referidos dirigentes não respeitam, nem respeitaram as instituições que lhes foram confiadas. Nunca se pode confundir o homem com a causa, nem com a instituição. E quem lidera alguma coisa deve saber isso.
Tudo isto intoxica qualquer tipo de opinião. Ao primeiro desaire todos os governantes são maus, todos os presidentes de clubes são incompetentes e todos os que estão ao serviço da nação são uns inúteis. Isto, no essencial, é o quotidiano dos artigos de opinião e de horas de comentário televisivo em Portugal. São todos avaliados pela exceção o que empobrece uma sociedade, sob uma capa de puritanismo que nem no seminário existe.
Logo, não devemos estar admirados com o estado da vida pública do nosso país. Há partidos que vivem da pós-verdade - mais importante quem diz do que os factos que os sustentam - e a denominação do termo “narrativa” está globalmente aceite. Não como uma forma de comunicar, mas como um pilar da vida pública. Cada um tem a sua narrativa e V.Ex.ª, caro leitor, faça a sua narrativa. Se não quiser escolha uma como quem escolhe um clube de futebol.
Não importam os factos, importa aquilo que queremos que eles representem e que afetem, na medida da nossa missão, quem pretendemos denegrir. Por isso, cá e lá, vemos partidos políticos que comunicam facciosamente: uns mentem, outros nem tanto, mas no essencial aquilo que fazem é construir uma história de meias-verdades.
No tempo atual há também quem viva da validação externa. Dos likes, da palmada nas costas quando anda na rua. Muitas vezes, nem sabem do que falam, mas sabem o que têm de dizer para captar o like, o voto ou a perceção positiva. Mesmo que no âmbito das suas funções mudem pouco, liderem menos e não reformem coisa alguma. Estes “necessitados de validação” tem outra característica: são autofágicos batem nos seus porque sabem que isso rende credibilidade no mundo dos likes. Segundo eles dá uma dimensão de independência aos olhos dos comentadores digitais. É legítimo, mas eticamente muito duvidoso. Não se esqueçam: hoje são “aplaudidos”, amanhã apupados e nessa altura não há solidariedade dos seus, nem dos outros. Todos atacarão porque a solidariedade, essa, não existe no padrão ético do politicamente correto nacional.
No essencial, este texto não pretende ser uma lamentação de nada. Apenas um alerta de que não podemos esperar aqueles que escolheram a vida da aceitação, validação e do comodismo sejam protagonistas de grandes transformações. Portugal está pejado de gente que fala muito e faz menos do que diz. Já que setembro é de recomeços, que se reflita sobre isto. Que se tomem mais decisões, que se liderem reformas e que se discutam projetos. Que se fale menos de pessoas, vidas, carros, casas ou escolhas pessoais. Que se preocupem menos com os likes.
Pode ser que aí se mude alguma coisa.