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Explicador Madeira

Mês de consciencialização para a SOMP

Desinformação prejudica diagnóstico e tratamento da Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina

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Recentemente, a Síndrome do Ovário Poliquístico (SOP) passou a designar-se Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina (SOMP). Uma nova designação que pede maior reflexão sobre esta síndrome que afecta entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Setembro é o mês de consciencialização para Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina. Consciencialização que é sobretudo importante numa altura em que a desinformação prolifera.

A SOMP continua a ser uma das principais causas de alterações hormonais e dificuldade em engravidar. É uma síndrome hormonal e metabólica complexa, que se manifesta de forma diferente de pessoa para pessoa. Foi uma visão mais abrangente da doença que levou, recentemente, a que um grupo internacional multidisciplinar de especialistas tenha chegado a consenso para a alteração da designação para Síndrome Ovárica Metabólica Poliendócrina.

O novo nome procura reflectir sobre o conhecimento científico que temos hoje disponível, e tornar ainda mais claro que esta condição vai muito para além dos ovários. A síndrome não corresponde à presença de quistos, nem se limita à função reprodutiva. Aliás, embora esteja muitas vezes associada à infertilidade, a verdade é que o diagnóstico não é sinónimo da impossibilidade de vir a engravidar.

“Pode dificultar a ovulação, mas não é uma sentença de infertilidade. Muitas mulheres conseguem engravidar naturalmente e outras podem, através de tratamentos simples, restaurar a ovulação e aumentar significativamente a probabilidade de gravidez”, esclarece a ginecologista Margarida Enes, especialista em medicina da reprodução do IVI Lisboa.

O nome antigo era, efectivamente, pouco preciso. Os ‘ovários poliquísticos’ não contêm, na verdade, quistos perigosos, mas um número aumentado de pequenos folículos. Além disso, nem todas as mulheres com esta síndrome apresentam esse aspecto na ecografia. A nova designação reconhece que estão envolvidos vários sistemas hormonais e que podem existir repercussões metabólicas, reprodutivas, dermatológicas e psicológicas.

Não é apenas um problema ginecológico. Trata-se de uma condição metabólica que pode aumentar o risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipertensão arterial e alterações cardiovasculares. Margarida Enes

Entre os sintomas mais frequentes da SOMP estão ciclos menstruais irregulares (muito espaçadas ou ausentes), acne, aumento de pelos no rosto ou no corpo, dificuldade em controlar o peso, alterações da ovulação, e ansiedade, sintomas depressivos, alteração da imagem corporal ou a diminuição da qualidade de vida.

Contudo, nem todas as mulheres apresentam os mesmos sintomas e o excesso de peso não é necessário para o diagnóstico. O diagnóstico que se deve basear em critérios clínicos e laboratoriais, através de uma a avaliação que inclua história menstrual, sintomas, análises hormonais e ecografia ginecológica.

O acompanhamento deve ser multidisciplinar e adaptado aos objectivos de cada mulher, quer pretenda controlar sintomas, melhorar a qualidade de vida ou engravidar. Margarida Enes

Desinformação preocupa

Numa altura em que, cada vez mais se recorre às redes sociais para procurar respostas, cresce simultaneamente a desinformação. Quando se trata de casos de saúde, existe um risco associado, quando conteúdos sem base científica proliferam. Concretamente, relativamente à SOMP, as redes sociais estão a “criar falsas expectativas sobre fertilidade e perda de peso”.

Há muita desinformação sobre esta síndrome. Circulam conselhos simplistas, dietas extremas, suplementos sem evidência científica e até promessas de cura que podem criar falsas expectativas e atrasar o diagnóstico e o tratamento adequado. Margarida Enes

A especialista alerta para o facto de que “muito destes sinais são normalizados ou interpretados fora de contexto”, o que leva a algumas pacientes recorram a consultas já convencidas de que têm a síndrome, ainda antes de ser feito o diagnóstico. Ainda assim, vinca que é importante que, aquando de sintomas compatíveis, seja procurada ajuda médica.

Um dos mitos comuns nas redes sociais liga a SOMP ao excesso de peso, quando não é verdade que apenas mulheres com excesso de peso sofram da síndrome. Aliás, a não existência de excesso de peso pode, mesmo, atrasar ou dificultar o diagnóstico. Outro erro frequente é a associação da síndrome exclusivamente aos ovários, sendo que não se trata de um problema apenas ginecológico.

A proliferação de conteúdos sobre alimentação, fertilidade e perda de peso também preocupa os especialistas. Algumas mulheres iniciam dietas muito restritivas ou tomam suplementos recomendados por influenciadores digitais sem acompanhamento clínico.

Recentemente, começaram a circular nas redes sociais conteúdos sobre fármacos utilizados para perda rápida de peso, apresentados como uma solução para esta síndrome. Contudo, alerta Margarida Enes, ainda existem muitas dúvidas relativamente ao impacto destes medicamentos na fertilidade e na gravidez.

Embora alguns destes fármacos possam ser indicados em contextos específicos e sob supervisão médica, não estão aprovados como tratamentos de fertilidade e continuam a faltar estudos robustos sobre os seus efeitos na concepção, na ovulação e na segurança durante a gravidez. Por isso, é importante evitar a automedicação e decisões tomadas com base em testemunhos publicados online. Margarida Enes

Mudanças no estilo de vida podem ajudar a controlar os sintomas e a melhorar a ovulação, mas não existem ‘soluções milagrosas’. Mais, a redução de peso, quando necessária, deve ser feita de forma gradual, equilibrada e acompanhada por profissionais de saúde.

Ainda assim, o aumento da visibilidade da síndrome nas redes sociais teve também um efeito positivo ao permitir que mais mulheres falem abertamente sobre sintomas antes ignorados. No entanto, reforça a importância de distinguir testemunhos pessoais de informação médica validada.