Tolerância nacional é diminuta
Parece que a Cristiano Ronaldo já não lhe é permitido errar.
Se falha um golo, há quem descubra sinais de decadência. Se é substituído e fica desagradado, é porque não sabe aceitar decisões. Se sai para o balneário antes da festa, é porque amua. Se não sorri, há uma tese. Se não bate palmas, há outra.
Talvez tenhamos esquecido uma coisa bastante simples: Cristiano Ronaldo é, apesar de tudo, uma pessoa.
Uma pessoa extraordinariamente competitiva, habituada a ganhar, a exigir de si própria e dos outros, a viver o futebol com uma intensidade que provavelmente poucos compreenderão. E uma pessoa assim também pode ficar frustrada. Pode irritar-se. Pode ter um dia mau. Pode falhar. Pode até amuar.
O que é curioso é que passámos décadas a elogiar a sua obsessão pela vitória e agora parecemos escandalizados quando essa mesma obsessão se manifesta de uma forma menos conveniente. Queremos o Ronaldo que marca, decide, celebra e levanta troféus. O resto, aparentemente, devia ser eliminado do pacote.
Não. Cristiano Ronaldo não tem de ser perfeito para continuar a ser quem é. Aliás, talvez a verdadeira normalidade esteja precisamente no facto dos melhores falharem, até os campeões se zangarem e até os ídolos terem direito a ficar chateados.
Depois de tantos anos a exigir-lhe que fosse extraordinário, talvez também lhe possamos conceder o direito de, de vez em quando, ser apenas humano. Bolas para os ingratos da bola e da vida, sejam comentadores sem habilitações ou jogadores mal resolvidos que agora transformam o craque eterno numa máquina sem emoções, sem frustração e sem direito a ter um mau momento.
L. Paulo Ferreira