Madeira procura fórmula para travar o abandono agrícola
Ordenamento, estrutura fundiária, envelhecimento e falta de informação condicionam futuro do sector
O conhecimento rigoroso do território, a protecção dos solos agrícolas, o combate ao abandono e à fragmentação da propriedade e a renovação geracional foram apontados como desafios centrais para o futuro da agricultura madeirense, durante o debate promovido ao longo da manhã desta segunda-feira pela Região Madeira da Ordem dos Engenheiros, na Casa da Luz.
Ilídio Sousa, director regional do Ordenamento do Território, defendeu que qualquer política de ordenamento ou de protecção agrícola deve assentar em informação territorial rigorosa. “É fundamental termos dados para podermos trabalhar”, afirmou, apontando dificuldades na disponibilização e articulação de informação sobre solos, meteorologia e cadastro. Nesse contexto, destacou a criação em curso do Observatório do Território, que deverá reunir e tratar informação actualmente dispersa por várias entidades, recorrendo também à inteligência artificial e a outras novas tecnologias.
Sobre a eventual criação de uma Reserva Agrícola, alertou para a necessidade de evitar que a protecção dos terrenos resulte na sua imobilização e posterior abandono. Defendeu uma abordagem que preserve a capacidade produtiva dos solos e, simultaneamente, promova a sua utilização. Apontou ainda a necessidade de melhorar a estrutura fundiária, facilitando a agregação de parcelas e a criação de unidades agrícolas economicamente mais viáveis, bem como de aprofundar o conhecimento sobre a propriedade através do cadastro simplificado.
Francisco Albuquerque, da Madeira Wine Company, centrou a intervenção nos problemas demográficos e económicos que condicionam a agricultura, com particular incidência na viticultura. O envelhecimento da população rural, a redução do número de jovens e a dificuldade de garantir a renovação geracional tornam, na sua perspetiva, essencial criar condições para fixar pessoas no mundo rural e tornar a atividade agrícola economicamente atractiva.
A experiência dos Açores foi trazida por Nuno Sousa, director regional dos Recursos Florestais e Ordenamento Territorial, que destacou a importância da articulação entre os diferentes instrumentos de gestão territorial. Agricultura, floresta, ambiente e ordenamento devem ser encarados de forma integrada, cabendo ao planeamento definir e proteger as áreas com vocação agrícola.
Paulo Rodrigues, da Loja do Chá Madeira, apresentou a experiência de recuperação de terrenos abandonados para uma actividade agrícola diferenciadora, neste caso a produção de chá. Salientou o potencial existente em terrenos atualmente improdutivos, mas também os obstáculos colocados pelo reduzido dimensão das propriedades, pela necessidade de investimento e pela exigência de conhecimento técnico. “A agricultura é uma coisa séria”, afirmou, defendendo uma abordagem profissional e baseada em conhecimento.
O debate, integrado no ciclo 'Conversas com a Sociedade 2025–2028', convergiu assim em torno de um conjunto de problemas que se cruzam: ordenamento, abandono dos terrenos, fragmentação da propriedade, envelhecimento dos agricultores, necessidade de investimento e falta de informação integrada sobre o território.